Especial
Sabado, 14 de Junho 2008 - 19h26 Os baixos estoques de sangue do Hemocentro de Ribeirão Preto, que vêm operando com uma reserva 25% abaixo do normal, fizeram com que Antonio Alves Filho, 56 anos, morador da Vila Tibério, vivesse uma situação insólita e rara no meio médico –após três anos na fila de espera por um transplante de fígado, ele foi chamado pelo hospital, entrou na sala de cirurgia, foi anestesiado, teve o abdômen aberto, mas acordou horas depois sem o novo fígado.
“Faltou sangue”, conta seu Antonio, decepcionado com o cancelamento do transplante.
A exemplo de muitas outras pessoas na fila de espera (são 110 em Ribeirão Preto, e 30% morrem antes de receber um novo órgão), Antonio é vítima da silenciosa hepatite C.
Em 1975, ele sofreu uma cirurgia no tornozelo, quando recebeu transfusão de sangue – sangue provavelmente contaminado pelo vírus da hepatite C.
“Nunca tive sintoma nenhum”, explica ele. No final de 2003, na sua terra natal, Igarapava, fez exames de rotina, que detectaram discrepâncias nas enzimas do fígado.
“Os médicos pediram exames mais detalhados. Só no final de 2004 o Hospital das Clínicas confirmou o diagnóstico de hepatite C”, recorda.
“Cirrosado”
A essa altura, o fígado já estava “cirrosado”, como Antonio diz. “Entrei para a fila de espera em agosto de 2005. Como meu sangue é B positivo, é mais difícil conseguir um órgão compatível”, destaca.
Em agosto de 2006, conseguiu ser aposentado por invalidez e tomou a decisão de se mudar para Ribeirão Preto, para ficar mais perto do HC.
No ano passado, alcançou a segunda posição na fila de espera – a classificação depende da gravidade do estado de cada paciente.
“Foi quando me chamaram pela primeira vez. Sempre que vai ter um transplante, eles chamam o primeiro e o segundo da fila. Se o primeiro não estiver em condições de receber o fígado, sorte do segundo colocado. No meu caso, internei, fiz os exames, mas o primeiro colocado estava bem e foi transplantado”, recorda.
Segunda vez
Quarta-feira, 26 de março de 2008, seis horas da tarde. Antonio está jantando quando o telefone toca.
É o Grupo Integrado de Transplantes de Fígado do HC, avisando que apareceu um órgão compatível. E ele é o primeiro da fila.
“A gente fica emocionado, dá uma tremedeira”, recorda. Um cunhado o levou para o HC e às 23h00 ele estava entrando na sala de cirurgia.
Mas a operação não transcorreu como o esperado. Antonio tem níveis baixos de plaquetas (“plaquetonia”), sofreu uma intensa hemorragia, a equipe utilizou todas as bolsas de sangue reservadas e acabou optando por suspender a cirurgia.
O segundo colocado na fila de espera, que também estava no Hospital das Clínicas, não pôde receber o órgão, que acabou sendo encaminhada às pressas para o hospital da Unicamp, em Campinas.
HC pode fazer 50 transplantes por ano
Segundo Orlando de Castro e Silva, coordenador do Grupo Integrado de Transplante de Fígado do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, o caso do aposentado Antonio Alves Filho não foi único em que os baixos estoques de sangue inviabilizaram a cirurgia.
Além desse episódio inusitado, já que o paciente chegou a ser aberto na sala de operações, ocorreu outro, em que um fígado em boas condições foi doado, mas a preocupação com a possibilidade de faltar sangue fez com que a equipe abrisse mão do órgão, que acabou sendo encaminhado para um hospital de São José do Rio Preto.
O HC de Ribeirão Preto tornou-se em maio de 2001 o terceiro centro hospitalar do interior paulista a realizar transplantes de fígado.
Após dificuldades iniciais com a montagem de equipe multidisciplinar, o número de transplantes começou a aumentar e chegou a dezesseis em 2006. No ano passado, o grupo atingiu seu atual recorde, com dezenove transplantes.
Para este ano, a expectativa era de atingir pela primeira vez a casa dos vinte transplantes, mas a falta de órgãos e as dificuldades com o fornecimento de sangue inviabilizaram a meta - de janeiro até agora foram realizadas apenas cinco cirurgias.
Se houvessem órgãos e sangue em quantidade suficiente, o HC poderia realizar até cinqüenta transplantes por ano. No momento, 110 pessoas aguardam na fila de espera por um fígado. Segundo Castro e Silva, cerca de 30% desses pacientes morrem antes de se encontrar um órgão compatível.
Hemocentro
Para melhorar a captação de sangue, Hemocentro de Ribeirão Preto estender o horário de funcionamento do posto de coleta instalado na rua Quintino Bocaiúva, 470, no bairro Higienópolis. Em vez de encerrar o expediente, nos dias úteis, às 17h30, o atendimento agora vai até às 19h.
Nos últimos meses o Hemocentro vem operando com estoques 25% abaixo dos níveis considerados seguros. E nessa época do ano o movimento de doações é prejudicado por fatores como as campanhas de vacinação contra a gripe e as viroses comuns no outono/inverno - ambas restringem o universo de doadores. Uma pessoa com gripe, por exemplo, tem de esperar uma semana, após o fim dos sintomas, para poder doar sangue.
O posto de coleta da rua Quintino Bocaiúva funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h, e aos domingos, das 7h às 13h. Já na sede do Hemocentro, ao lado do HC-Campus, no bairro Monte Alegre, as doações são recebidas diariamente das 7h às 12h30.
Não podem doar sangue quem teve (ou tem) hepatite após os 10 anos de idade; lepra (hanseníase); doença de Chagas; malária (maleita); Aids; diabetes ou câncer, que fezo faz uso de drogas ilícitas e quem mantém relações sexuais de risco.
Achou que era sonho quando disseram: não deu certo
Antonio Alves Filho demorou um pouco para se dar conta de que, apesar da enorme cicatriz no abdômen, não tinha ganho um novo fígado.
“Eu acordei meio grogue da anestesia e um médico avisou que tinha faltado sangue, que o transplante não tinha sido feito. Aí dormi de novo”, conta.
“Quando acordei de vez, estavam comigo um irmão e um cunhado. Aí eu falei que tinha sonhado que a cirurgia não tinha dado certo, e eles avisaram que era verdade, não era sonho não”, relembra.
Antonio passou mais duas semanas internado, se recuperando do transplante que não aconteceu. Deixou o Hospital das Clínicas com uma grande cicatriz no abdômen e duas hérnias.
Hoje, está em sétimo lugar na fila de espera. Sofre de sintomas como cansaço e dores abdominais. E passa o tempo esperando.
“O celular está sempre por perto, o telefone fixo também. Toca o telefone, o coração dispara, não dá para não pensar que pode ser o hospital”, comenta Antonio.
Ele torce para que aumentem as doações de fígado e de sangue. “É uma vida de espera e de apreensão”, resume.