Júlio Chiavenato
Sabado, 14 de Junho 2008 - 19h42 Olhando os estandes religiosos na Feira do livro, percebi que a morte faz mal à saúde, mas causa maior dano à literatura. Nunca imaginei que Tolstoi piorasse tanto depois de morto. Os livros dele, escritos no além e psicografados, matariam o conde de vergonha, se ele estivesse vivo. Seu humanismo virou pieguismo, a fé, crendice. E o defunto ainda escreveu uma autobiografia de lascar.
Pior aconteceu com Antero de Quental. Com seu bigodão socialista, desiludido dos azares na vida, suicidou. Antes compôs alguns dos mais belos sonetos da língua portuguesa. Um deles é fantástico pela ironia (O Convertido), confessando que ao perder a confiança na razão voltou “para Deus sua alma triste”. Então acha a paz e conclui: “Só me falta saber se Deus existe!”. Pois não é que depois de morto Antero começa a plagiar poetas menores?
Imperdoável é o Eça de Queirós. O que diria Ramalho Ortigão!, seu companheiro de As Farpas? De anticlerical e realista, levantando saias e batinas, criando Amaros e Luísas, velhas e velhotas fuxiqueiras, além do cafajeste Basílio e do impagável Acácio, tem uma recaída depois de falecido e escreve romancinhos chinfrins, sem insinuações luxuriosas e numa linguagem de causar inveja ao Paulo Coelho. Renegando seu passado e a Questão Coimbrã, mortinho da silva, torna-se doutrinador espírita.
Para quem leu o que Eça escreveu quando estava vivo, aprendendo com ele como colocar os pronomes e conjugar os verbos mais esquisitos, e convenceu-se que a vida não passa de um fado com jeito de tango, é demais. E o Victor Hugo? Depois de morto escreve mais do que quando vivia. E tão mal que pode perder a imortalidade que a Académie Française lhe concedeu quando ele era vivo.