Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Sexta-Feira, 20 de Junho 2008 - 23h51

Verdade inconveniente


Na festa do centenário da imigração japonesa, lembraram tempos duros, mas excluíram a relação das dores. A verdade é que os japoneses foram mal recebidos e tratados com mais desprezo do que os demais imigrantes. Depois, quando começaram a enricar, descobriram que eles não eram assassinos nem traidores.
Os “cafelistas” de Ribeirão Preto não queriam japoneses na “sua” cidade. Liderou a campanha o cafeicultor Múcio Whitaker, que na Sociedade Nacional de Agricultura, afirmou, conforme ata registrada: “O amarelo é pouco constante, muito grevista e não se adapta ao trabalho (...), não gosta do patrão, não procura aprender a nossa língua (...) são muito unidos, criando aos fazendeiros dificuldades para punir um rebelde”. Apoiou-o o doutor Jorge Lobato Perdigão, cujos cafezais lambiam a cidade: “Já temos muito amarelão”.
Múcio Whitaker também alertou sobre o alcoolismo dos negros, “raça em decadência, seus filhos são desanimados, suportam pouco o trabalho”. O nosso senador da época, João Alves Meira Junior, disse que lutaria contra a “degeneração da raça”: prometeu Ribeirão Preto sem negros e “amarelos”. Aprovou-os um dos grandes historiadores daqueles tempos, Alfredo Ellis Junior, acrescentando que se o japonês não era inferior racialmente, era um fanático, porém “o negro é moralmente um degenerado”.
Durante a segunda guerra mundial, no Diário da Manhã, alguns jornalistas de Ribeirão Preto pediam que a população vigiasse os japoneses e na dúvida, pau neles. Hoje, que eles escaparam do latifúndio, festas e lantejoulas.
(Em passant: o Jardim Japonês ficou parecendo a Disneylândia e o portão, delicada e tradicionalmente de madeira, agora é de cimento.) Puxa, como eu sou mal educado.

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