Caderno C
Sabado, 21 de Junho 2008 - 15h4
AS ANEDOTAS PICANTES DO DOUTOR GABRIEL Lançado pela Caros Amigos
Todo o processo de criação do novo livro do jornalista e escritor João Garcia está envolto em mistérios. Da elaboração até a publicação de “As Anedotas Picantes do Doutor Gabriel”, nada é o que realmente parece ser. Ou, ao contrário, tudo é a mais absurda verdade.
“Dos livros que escrevi, esse me foi o mais fácil. Recebi os textos praticamente prontos de um tabelião da cidade de Batatais, Antonio Carlos Paladino Borges” explica lá no início do livro o autor, ou melhor o co-autor, como Garcia prefere se identificar a certa altura.
Ficamos sabendo que as tais anedotas são de autoria de um delegado chamado Gabriel Monteiro de Barros e anotadas do próprio punho por Rosário Borges, pai de Antonio Carlos. Histórias que só poderiam ser publicadas uma década após a morte de Rosário, mas que passados 15 anos, são entregues ao escritor nascido em Santa Rosa de Viterbo.
No fundo, não estaria João Garcia nos pregando uma peça? Ele garante que não, mas ao contar como os causos de Doutor Gabriel foram parar em suas mãos, confunde ainda mais.
- Há um ano, recebi uma encomenda sem remetente com estes escritos. Entrei em contato com pessoas que moravam em Batatais, como o radialista Antônio Carlos Morandini e o publicitário Itamar Suave, e ninguém nunca ouvira falar do doutor Gabriel, recorda.
Smplificada
Mas as histórias, verdadeiras ou não, eram boas e o escritor resolveu adaptá-las para a linguagem literária.
- No original, a escrita era um pouco empolada, meio burocrática. Eu dei uma simplificada, modifiquei aqui e ali e, claro, coloquei o meu estilo, explica.
A narrativa recria em 191 páginas e 18 anedotas figuras do universo caipira do fim do século 19 e parte do século 20. Um cenário algo decadente e selvagem onde os personagens parecem eternos, mas em nenhum momento óbvios. Garcia, leitor de Guimarães Rosa e Willian Faulkner, busca dar uma nova dimensão a historietas contadas em botecos e nas margens dos rios.
- Escrevo sobre coisas da região. Com a linguagem do caboclo paulista, ressalta.
João Garcia conhece bem o terreno onde pisa. Esta é a terceira obra publicada pelo jornalista, atual diretor editorial de A Cidade, que escreveu também “Dioguinho, o Matador de Punhos de Renda”- sobre o bandido caipira mais famoso do interior paulista e “O Caminho do Ouro”- o relato sobre a reportagem feita em cima de cavalo, percorrendo mais de 1.600 quilômetros do caminho do bandeirante Anhangüera, entre São Paulo e Goiás.
Fogo do Céu
Dioguinho, aliás, aparece nas Anedotas de Doutor Gabriel. Em “Fogo do Céu”, o matador utiliza um método pouco ortodoxo para “ressuscitar” um capiau fulminado por um raio.
- Ele vivia naquela região de Batatais e Altinópolis, onde se passa boa parte das histórias, diz Garcia, sem maiores explicações.
Não há dúvida de que as melhores histórias são aquelas que abusam do realismo-mágico como “O Major Assassinado” e “Zé Capivara”. Todas contadas quase que de forma cinematográfica pelo escritor. Mas em ritmo de “foxtrote” como bem avisa no início do livro.
- Tenho uma linguagem visual mesmo. Talvez até por influência da TV, ressalta João Garcia, que foi gerente de jornalismo durante anos na EPTV.
Presente e passado
“As Anedotas Picantes do Doutor Gabriel” é um lançamento da Caros Amigos Editora, por anos comandada por Sérgio de Souza, morto no início de 2008. Sérgio também escolheu o título da obra e fez a revisão do texto, um de seus último trabalhos à frente da editora.
O prefácio é do repórter televisivo e vencedor de vários prêmios Esso, José Hamilton Ribeiro. E o texto da contra-capa ficou a cargo do escritor Annibal Augusto Gama. Além disso, o tratamento visual da obra também é um caso à parte.
As ilustrações, raras nas edições de hoje em dia, ficaram a cargo do artista plástico Paulo Camargo. E para marcar ainda mais o teor nostálgico do livro, a capa mais parece um daqueles livros-caixa encontrados em antigos estabelecimentos comerciais.
- Gosto de escrever sobre esta época. Para entender o presente, a gente deve ter informação do passado, concorda?, pergunta, já sabendo a resposta.
LIVRO
Confira uma das anedotas
“No silêncio da tarde, o Major estava no alpendre da casa da fazenda e escutou ao longe um grito amolecado de homem. Esticou os olhos verdes no horizonte e nada. Levantou-se do banco com dificuldade, ficou de pé para ver se enxergava alguma coisa. Apenas vacas pastando, pequenas, lá longe, ao pé da serra, naquela paisagem cotidiana.
O Major era um homem alto, barriga fugindo para fora da camisa, cabelos brancos espetados, olhos verdes, muito verdes. Os olhos do major punham medo, brilhantes.
Era um homem bravo e pândego. Mas de pândegas doídas, sarcásticas, amargas, ferinas. Muito rico, dono de gado, alqueires de milho, córregos com sucuris, rios de muitos peixes, cavalos baios, carros de boi, carretão, carroças, balaios, jumentos, carneiros, touros, porcadas no mangueirão, homens pretos e mulheres pretas, italianinhos e italianinhas descascados.
Era dono dos doidos. De cinco ou seis babões, reviradores de olhos, falantes sem eira nem beira, aviadores do futuro, epilépticos.
De mulheres gordas, fortes, de pernas brancas e cobiçadas. De negras altas, boas no eito e atrás de moitas, deitadas, com os ossos da bacia a ferir-lhe o barrigão branco na volúpia do sexo. De maridos obedientes, humilhados diante dos filhos, pois sabedores que o Major lhes ocupava as mulheres”.
Trecho de “O Major Assassinado”
SERVIÇO
As Anedotas Picantes do Doutor Gabriel
Autor: João Garcia
Caros Amigos Editora
191 páginas
Tiragem: 2 mil exemplares
Preço: R$ 32,90
www.carosamigos.com.br