Jornal A CIDADE

Leia_A_cidade

Imóveis

Sabado, 21 de Junho 2008 - 15h5

No ápice do individualismo


Algumas das cidades da região nordeste de São Paulo – Sertãozinho, Ribeirão Preto, São Carlos, dentre outras – estão entre as que mais apresentam estatística elevada na relação veículo por habitante. E veículo entendido como sendo automóveis, ônibus, motos, caminhonetas. Se consideramos apenas os automóveis, o rosto do individualismo se acentua.
Individualismo é o egoismo do mercado. Roma assentou seu Império em dois pilares. Um, no fato de ser uma cidade. A Inglaterra também comandou um império – o Império Britânico – mas ele foi construído a partir de um país e até de uma comunidade de países. O outro, no que se denominou de egoismo esclarecido. O mesmo insumo do que é feito o atual imperialismo norte-americano, um híbrido do imperialismo britânico, do qual seria natural prosseguidor, continuador, com o imperialismo de Roma. Deste copiou o tal de egoismo esclarecido.
Vivemos o que poderíamos denominar de quase o ápice do individualismo, fruto da exportação das idéias e dos princípios da revolução norte-americana de 1 776, que marca o ano um da construção do imperialismo dos Estados Unidos, herdeiro também dos métodos da Inglaterra de quem havia sido colônia. E ele se apresenta em nossas vidas, projetando-se sobretudo e principalmente na construção civil e na arquitetura das cidades além de, também, nos transportes.
Na construção civil o reflexo é nas residências, muito mais do que nas construções com fins econômicos, estas para abrigar unidades de produção como empresas comerciais, industriais e de serviços.
Que tipo de construção nasce do individualismo? Resposta: nas construções térreas, as residências com um quarto apenas. É a conhecida casa de três cômodos: quarto, sala e cozinha. Às vêzes, tem mais. Mas a verdade é que apresenta apenas um quarto, como que a demostrar que é local de morada de uma única pessoa. Outra arquitetura do individualismo é a que ocorre nas construções verticalizadas. Referimos aos flats.
Já nos transportes, seria necessário uma revolução cultural para fazer o público aceitar transporte coletivo, exatamente em uma era de individualismo exacerbado. Deseja-se o automóvel, que mantém o que é característica da revolução do individualismo: a privacidade. E aceita-se o omnibus – o para todos, quando se faz a tradução do latim – apenas como exceção. Nem se pode falar do transporte de massa – o metropolitano – que é bem condizente com a era em que vivemos: um capitalismo individualista mas de massa. Massa aí lembra falta de identidade, gente feita em termos serializados. Elias Canetti, no seu clássico Massa e Poder, trata deste assunto de maneira nítida.
A monotonia das construções de conjuntos habitacionais – todas as unidades rigorosamente iguais – se conforma com o capitalismo de massa, que se expressa nas construções. Depois, com o peso do individualismo, cada proprietário tende a dar à sua propriedade, características mais identificadas. Uma id entidade – portanto, uma identidade – é uma entidade cujas característica são expostas, visíveis.
Flats são as construções do futuro. Eles estão para arquitetura como o automóvel esta para o transporte.

Vicente Golfeto

  • Imprimir
  • Enviar

É proibida a reprodução do conteúdo dessa página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso sem autorização escrita da Empresa Jornalistica Orestes Lopes de Camargo S\A
ARZ