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Sabado, 21 de Junho 2008 - 15h21

Padre Donizetti foi tachado de comunista

Sidnei Quartier
WEBER SIAN Padre Donizetti foi tachado de comunista DONA LAILA RISTUM Era menina quando conheceu o Padre: hoje cuida das coisas que ele deixou

Padre Donizetti chegou a Tambaú na véspera do dia de Santo Antônio. Fazia muito frio naquele 12 junho de 1926. Ele tinha apenas 44 anos e os fiéis estranharam uma de suas manias: a de manter a cabeça rigorosamente raspada. Dizem que usava navalha. Muito mais tarde, a cidade soube o motivo. Ainda em Vargem Grande do Sul, de onde saiu para Tambaú, recebeu o elogio de uma mulher, que se disse encantada com sua “vasta cabeleira negra”. No dia seguinte, raspou tudo, e para sempre.
Tinha 1,84m de altura, era magro, bonito, perfeito no piano e no órgão, dono de uma voz de barítono, regente.
Padre Donizetti fez dois anos de Direito no Largo São Francisco, a mais importante faculdade do país. Há depoimentos de que, se quisesse, poderia se tornar um advogado brilhante.
Mas ele não queria o brilho. Ele usava apenas batinas pretas, hábito que incluiu em seu dia-a-dia logo após o voto de pobreza, no Colégio São Bento, onde foi professor de música e regente do coral.

A Casa do Padre
Em Tambaú, Padre Donizetti passou a morar numa casa modesta, ao lado da igreja de Santo Antônio.
Levantava-se bem cedo e recolhia-se no começo da noite para ler. Ao ganhar um livro, pegava-o com as duas mãos.
Tinha bom apetite. Tomava sopa à noite, de batata, mandioca, fubá ou caldo de quiabo. O almoço era servido antes do meio-dia. Geralmente, comia arroz, feijão, um bife ou ovo frito e salada. Adorava manga.

Disciplina
Ganhou uma cama de ferro com um colchão de capim, mas preferia dormir no chão, sobre uma tábua. Usava como travesseiro, um tijolo envolvido num pano ou os livros que lia antes de deitar.
“Era um homem extremamente carismático”, lembra Laila Ristum de Santis, 72 anos, uma das encarregadas da Casa do Padre, responsável pela organização dos pertences de padre Donizetti.
Laila, ainda menina, viu de perto um padre Donizetti que se impunha, tinha presença marcante e, enquanto teve saúde, nunca se furtou a uma bênção.
Mas padre Donizetti também tinha suas manias. Uma delas era impedir que se entrasse na igreja para a reza vestindo camisa de manga curta.
“Ele era enérgico e severo com algumas coisas”, diz Laila.
Outra de suas lembranças, são as mãos de padre, enormes, sobre o teclado do órgão.
“A voz do padre Donizetti era poderosa e melodiosa”, conta Sônia Maria Teixeira Spiga Real, 58 anos, outra encarregada da Casa do padre.
“Naquela época, em 28, 29, ele já organizava o povo. Mantinha um imenso terreno, no Lar São Vicente, onde se plantavam verduras e legumes. 70% da colheita eram dos trabalhadores e 30% destinados aos velhinhos do Lar”, disse.

Comunista
Padre Donizetti, na verdade, não deixou Vargem Grande do Sul por livre e espontânea vontade. Sua transferência para Tambaú foi uma imposição dos fazendeiros.
Em Vargem Grande, garantem testemunhas, criou escolas para os colonos italianos, fundou um clube de futebol, promoveu festas juninas jamais vistas e celebrava rezas nas casas das famílias. Acima de tudo, formou sindicatos e cooperativas. Alguns fazendeiros não gostaram e passaram a acusá-lo de comunista.

Dificuldades
Em Tambaú, também enfrentou dificuldades. A cidade, em 1926, tinha 43 indústrias cerâmicas e os problemas eram semelhantes aos de Vargem Grande do Sul.
Ao chegar, uma de suas primeiras providências foi a de retirar, de frente da igreja, os bancos reservados às famílias ricas. A partir daí, o local foi ocupado pelas crianças. Aliás, padre Donizetti tinha um imenso amor pelas crianças. Enquanto pôde, brincou muito com elas. Se divertia como ninguém, ao pedir que elas pegassem enormes e peludas taturanas com as mãos. E nada acontecia. Mas só quando ele estava perto. Longe dele, que ninguém tocasse as taturanas, porque elas provocavam queimaduras terríveis.

O domínio
A personalidade forte de padre Donizetti era incontestável.
Ele levantou a voz contra os patrões que atrasavam os salários. Pregava contra os “pagamentos com ordem”, que ele tachava de verdadeiro roubo. Tratava-se de um “vale” fornecido pelos patrões, obrigando os empregados a comprar mantimentos e vestuários em determinadas casas do comércio.
Seu trabalho pastoral também foi reconhecido. Até imigrantes japoneses passaram a freqüentar a igreja e muitos foram batizados. Nos sermões, dizia aos agricultores e colonos, sobre a necessidade de se plantar várias culturas.
Um dia, esbravejou. “Fiz voto de pobreza, não de miséria”. Quis dizer com isso, segundo o professor Osvaldo Francelin, que precisava de dinheiro para auxiliar os desamparados. Construiu o Asilo São Vicente, a Associação de Proteção à Maternidade e à infância e a Biblioteca Operária. Aliás, criou também sua banda paroquial, que animava as procissões e os dias santos.
Mesmo “aposentado” precocemente nunca perdeu o bom humor.

3 milhões de Donizettis
Até 1999, existiam 2 milhões e 700 mil brasileiros, homens e mulheres, com menos de 45 anos de idade, com Donizetti no nome. A grafia é variada. Pode ser também Donizete ou Donizeti. A fonte é o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Mas o radialista Francisco Donizetti Sartori, o Fiquinho, 50 anos, já encaminhou ao TSE solicitação para que os números sejam atualizados. Pelos seus cálculos, hoje, devem existir mais de três milhões de Donizettis.
Uma das informações pedidas por Fiquinho, o TSE já liberou.
Estão aptos para votar, nas próximas eleições, 219 mil Donizettis no primeiro nome, o que é mais raro.
“O mais comum é o uso de Donizetti no segundo nome. Na minha opinião, é expressivo o número divulgado pelo TSE”, disse Fiquinho, que deve juntar os dados ao processo de beatificação do padre.
Um dos candidatos a prefeito de Tambaú, pelo PSDB, é José Donizetti Prado, que escondeu o José e está usando só Donizetti.
Já entre os 21 novos dirigentes da Associação de Fiéis do Padre Donizetti, eleitos no último dia 16 de março, não há Donizetti. O que não deixa de ser curioso.

O Donizetti de uma semana de vida
O mais novo Donizetti residente em Tambaú tem sete dias. Matheus Donizetti Neves de Aquino nasceu segunda-feira passada (16), no mesmo dia em que padre Donizetti morreu, há 47 anos.
Os pais de Matheus, o ajudante de produção Luiz André e a mãe, Elisângela Aparecida, ficaram impressionados com os de mais de 30 mil romeiros que foram homenagear padre Donizetti, no domingo. E encontraram motivo para homenagear o “santo” de Tambaú. Matheus foi registrado na manhã de quarta-feira.
Soraya Moreira Silva, oficial substituta do único cartório de registro civil da cidade, não sabe informar quantos Donizetti existem em Tambaú. Ela explica que esse tipo de levantamento é difícil de ser feito.
“Quem deve ter estes números atualizados é o IBGE”, disse.
Mas no ano passado, em pesquisa realizada nas escolas do município, constatou-se a existência de 289 Donizettis.

30 mil pessoas em Tambaú. Muitas à espera de um milagre
Nota-se que o homem na cadeira de rodas, diante do túmulo do padre Donizete, tem o olhar triste. Seu nome é Aparecido Donizetti de Melo, 41 anos. Ele parece incomodado com as mulheres da Casa Paroquial que limpam o lugar. Ele queria estar sozinho com o padre Donizetti, que lhe deu o nome. Está à espera de um milagre.
No dia 5 de dezembro do ano passado, sobre o trator, o sol quase a pino, sofreu um derrame, desmaiou, caiu e acordou no hospital. Houve complicações e ele foi parar numa cadeira de rodas. Está fazendo fisioterapia, percebe que há alguma reação mas acha que só vai ficar bom com a ajuda do padre.
Aparecido Donizetti de Mello foi um dos cerca de 30 mil romeiros que passaram por Tambaú na última semana, no 47º aniversário da morte do padre. De manhã, sob uma temperatura de 14 graus, dona Suraia Vanzela, 68, e sua filha Luciane Vanzela, 37, também estiveram no cemitério. Moradora de Santa Rita do Passa Quatro, dona Suraia veio pedir que o padre Donizetti dê força ao neto, que um acidente de moto mandou para a cadeira de rodas.

Turismo religioso
Os 30 mil turistas que visitaram o túmulo de padre Donizetti, na semana passada, injetaram na cidade aproximadamente R$ 800 mil. Quem mais lucrou foram hotéis, pequenas pousadas, bares, restaurantes, postos de combustíveis, e, principalmente, a economia informal. Uma boa receita a mais para o município que tem orçamento estimado em R$ 30 milhões. Com 21.900 habitantes, Tambaú, a 95 quilômetros de Ribeirão Preto, é o quinto maior produtor de laranja do Estado. Mas seu forte são as 50 cerâmicas que empregam metade da população.
As emissoras da cidade (AM e FM) repetem duas vezes ao dia a última bênção de padre Donizetti. Há quem ainda se arrepie. E não são poucos.Nos anúncios de falecimento, o nome do padre é o mais lembrado. Como no de Arlindo Assalin, falecido no último dia quatro. O destaque é a frase em negrito: “Que Pe. Donizetti e Nossa Senhora Aparecida os iluminem”.

Em julho, 100 anos
Donizetti se decidiu pela vida sacerdotal em 1903, aos 21 anos, quando cursava o segundo ano de Direito no Largo São Francisco. Matriculou-se na Diocese de Pouso Alegre (MG) e tornou-se diácono em 12 de julho de 1908. No mesmo ano de sua ordenação, auxiliou o bispo de Campinas e foi vigário, por breve tempo, em Jaguariúna.

RP na vida do padre
Filho de um médico e de uma professora, Donizetti Tavares de Lima nasceu em 3 de janeiro de 1882, em Cássia (MG). A família mudou-se para Franca quando Donizetti tinha 4 anos. Em seguida, foi para São Paulo.
Corria o ano de 1909 e o coral do Colégio São Bento, em São Paulo, era um dos melhores do país. Seu regente era o padre Donizetti que tinha feito voto de pobreza e pedia para ser vigário em paróquia distante.
Felizmente, para ele, a Diocese de Ribeirão Preto tinha sido criada no ano anterior e precisava de sacerdotes.
E padre Donizetti, que no luxuoso Colégio São Bento vivia em quase isolamento, dormindo em um quarto sem janela, fazendo apenas uma refeição por dia, foi transferido para Vargem Grande do Sul. Ficou lá até começar o desgaste com fazendeiros locais. O arcebispo de RP, Dom Alberto José Gonçalves fez a troca: colocou o padre de Tambaú, em Vargem Grande, e mandou o padre Donizetti para Tambaú. Em 12 de junho de 1926, ele assumiu a paróquia de Tambaú, de onde nunca mais sairia.

O padre que atraiu milhões morreu sem poder dar a bênção
Padre Donizetti relata o que, para ele foi o primeiro milagre na cidade. “Atesto que a 11 de outubro de 1929, às 8h, irrompeu pavoroso incêndio na matriz. 22 imagens ficaram reduzidas a cinzas, restando da construção apenas as paredes revestidas de reboco. Entretanto, ficou ilesa a imagem de Nossa Senhora Aparecida com o manto de seda, o que causou profunda impressão a todos”.
Entretanto, para o professor Osvaldo Francelin, autor de reportagem sobre a vida do padre [em “O Tambaú”], apenas em 1954, quando Donizetti já tinha 72 anos de idade, é que se multiplicaram os milagres. Correu a fama do padre e Tambaú passou a receber grandes romarias. Vinha gente até do exterior. Mas a cidade, então com 9.500 habitantes, uma pensão e um pequeno hotel, não tinha como receber tantos romeiros. A maioria dormia na rua. Os trens ficam lotados, as estradas congestionadas. Em 1955, quando a cidade chegou a receber, no dia 30 de maio, 350 mil pessoas, o prefeito decretou estado de calamidade pública. Aos romeiros, padre Donizetti repetia; “Eu não curo ninguém. Eu peço a Deus e ele atende por intercessão da Virgem de Aparecida. Não me transformem em notícia de sensação, pelo amor de Deus”.
Não adiantava. O locutor Pedro Geraldo Costa narrava os milagres em programa diário na rádio Nacional. O padre estava também nas principais revistas e jornais do país. No decorrer de 55, Tambaú recebeu mais de três milhões de romeiros, que depenavam árvores e levavam tudo o que podiam “como lembrança”.
O fim
Começaram a aparecer aproveitadores que exploravam a fé dos romeiros, cobrando caro pela água e comida fornecidas em péssimas condições de higiene - relata o professor Osvaldo Francelim. As águas poluídas do rio Arrependido eram vendidas a preço de ouro em São Paulo.
Com isso, surgiu o receio de que houvesse uma grande epidemia. Por interferência do então governador Jânio Quadros, padre Donizetti foi obrigado a parar de dar sua benção diária. Foi um período de ostracismo. O padre recolheu-se. Teve a saúde debilitada.
Às 11h15 do dia 16 de junho de 1961, padre Donizetti Tavares de Lima morreu na casa Paroquial, em sua cadeira e assistido por alguns paroquianos.
Os milagres
A Casa do Padre chegou a guardar 2.400 muletas e mais de mil óculos, de pessoas que tiveram graças alcançadas.
“Manchete”, uma das revistas da época, enviou dois repórteres a Tambaú. Eles documentaram, na edição de 11 de dezembro de 1954, o milagre de João Ferreira Pinto, três anos, que veio do interior de Minas, no colo da mãe. O menino tinha reumatismo deformante, não conseguia andar e sofria dores terríveis. Padre Donizetti apenas tocou a cabeça do pequeno e as dores cessaram e ele saiu andando na casa paroquial.
Um outro milagre diz respeito ao respeitado jornalista Joelmir Beting, que foi coroinha do padre em Tambaú e era gago. Como relata Joelmir, o padre rezou um Pai-Nosso com ele e lhe deu caldo de quiabo. Joelmir nunca mais gaguejou.

Um santo à espera da beatificação
A irmã Célia Cadorin já participou de 20 processos de beatificação. Mas entre todos, o processo do padre Donizetti é o mais especial. Ela já começou a pedir orações e missas para vencer a batalha. E também está pedindo colaboração de R$ 0,50 ou R$ 1 no livro de ouro: é dinheiro para bancar as despesas com o processo.Estão sendo recolhidos testemunhos e depoimentos de curas do padre. “Vamos transformar o padre Donizetti de beato a santo”, diz irmã Célia Cadorin. A previsão para a canonização é de três anos, no mínimo.

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