Especial
Sabado, 21 de Junho 2008 - 15h44
O REPÓRTER EUCLIDES OLIVEIRA NA FILA, DÁ SINAL PARA O ÔNIBUS Vai começar uma viagem do Centro ao Ribeirão Verde
A primeira pergunta dos leitores eu respondo já: não, definitivamente, não vale a pena deixar o carro em casa. Sou de Jundiaí e essa foi a primeira vez que usei ônibus urbano aqui. Fiz todas as viagens - testando três linhas num único dia - como passageiro comum, sem identificar-me como jornalista.
E a verdade é que eu mal sabia por onde começar. Por exemplo: seria melhor levar dinheiro para pagar as passagens ou comprar o cartão com créditos, aqueles que se usam desde que a figura do cobrador praticamente deixou de existir em Ribeirão?
Resolvi comprar o cartão. Descobri que ele se chamava CIT (Cartão de Integração do Transporte) e que eu poderia obtê-lo na sede da Transurb, que fica na rua São Sebastião.
Na Transurb, fui direto ao caixa. Falei que queria o tal cartão. A atendente, com cara de poucos amigos, mandou que eu fosse até o guarda, para tirar uma senha numa maquininha própria, dessas que vemos em órgãos públicos. Esperei pacientemente a minha vez.
Chamado ao balcão, apresentei RG, forneci meu endereço e telefone em Ribeirão e adquiri o cartão: de saída, o usuário é obrigado a colocar um crédito no valor de cinco passagens (cada uma custa R$ 2,10, resultando em R$ 10,50), sob o pretexto de que o cartão é fornecido de maneira “gratuita”.
Pensei: se fosse gratuito mesmo, eu poderia colocar créditos quando eu bem entendesse. Calei-me (como certamente muitos usuários fazem) e resolvi colocar um crédito de R$ 21 (valor de 10 passagens), pois sabia que o dia ia ser longo.
Primeira viagem:
Ribeirão Verde
Às 9h55, paro no ponto próximo da rua General Osório.
Espero 10 minutos e pego, às 10h05, o ônibus da linha A-702 da empresa Turb, até o Ribeirão Verde. Dou sorte e azar: consigo um lugar para sentar, mas em cima da roda traseira.
Na esquina da Florêncio de Abreu com Visconde de Inhaúma, uma “leva” de passageiros desce e outra sobe. Pessoas muito simples. Na Amador Bueno, perto da porta do Daerp, já não há mais lugar para sentar no ônibus, que cruza a avenida Francisco Junqueira e entra na São Paulo, nos Campos Elíseos.
Idosos de pé
Noto idosos viajando de pé, por falta de mais lugares reservados a eles. Ninguém se levanta para ceder poltrona.
O ônibus segue, cruza a avenida Coronel Quito Junqueira, vai pela rua Fernão Salles e entra no trecho de mão dupla da avenida da Saudade, na altura do número 2000. Na avenida Brasil, pega mais passageiros na Vila Carvalho em frente da extinta Ceterp (Centrais Telefônicas de Ribeirão Preto) e ruma em direção ao Aeroporto Leite Lopes.
Já são 10h32. Estou andando há 27 minutos. E o ônibus entra na Avenida Recife, já no Jardim Aeroporto. A viagem tem fundo musical: um sonoro rap, que sai de uma caixa de som, no teto.
O sol ‘torra’
Já na rua Descalvado, cruzamos a rodovia Anhangüera (por um viaduto embaixo da pista) e segue por uma estrada asfaltada, cheia de curvas e de pista simples. Demorei a avistar a placa, mas consegui ver depois que era a avenida A. São 10h45 na rua Júlio Ferranti, já no Ribeirão Verde. Muita gente sobe no ônibus, para ir ao Centro. O sol começa a torrar meu rosto, do lado esquerdo. Pergunto a uma passageira se o ponto final ainda está longe.
“Aqui é o Ribeirão (Verde) segunda etapa. Nós estamos indo para a terceira”, disse a mulher. Na rua Francisco Izidoro da Silva, passei por muitas casas populares. Logo em seguida, desci na terceira etapa do Ribeirão Verde às 10h55. Portanto, foram 50 minutos de viagem. Todo esse tempo para percorrer 16 quilômetros.
Fim do primeiro teste: poderia chegar a Araras
Tomo um refrigerante num bar, antes de pegar o ônibus de volta ao Centro. Sento diante de uma enorme mesa de bilhar e vejo três máquinas caça-níqueis, (dessas que estão proibidas pela Justiça) escondidas atrás de um biombo forrado com propaganda de cerveja.
Vou ao banheiro. Não tem água. Saio de lá, incrédulo e sem lavar as mãos. Volto ao ponto e embarco às 11h10, em outro ônibus da Turb. Às 11h20, já não há mais lugares para sentar, quando paramos na Escola Estadual Diva Tarlá. Na volta, perto do Centro, muita gente desce na Avenida da Saudade. Às 11h45, o ônibus entra na avenida Francisco Junqueira e “me devolve” na rua Cerqueira César, às 11h50. Ao todo, gastei 1h45 para ir e voltar do Ribeirão Verde.
Tempo mais do que suficiente para viajar 120 quilômetros pela via Anhangüera (de carro, é claro) até o município de Araras.
Duas horas e cinco minutos: tempo para chegar até Limeira
Vida de repórter é assim: às 13h20, depois de almoçar, começo o segundo “passeio” do dia. Agora vou em direção ao Heitor Rigon, na zona Oeste de Ribeirão, pela linha B-970, também operada pela Turb. No movimentado ponto da Américo Brasiliense, espero 20 minutos, tentando inutilmente me proteger do sol debaixo da cobertura metálica. Passam cerca de 15 carros (João Rossi, Sumarezinho e outros) antes que o meu apareça. Embarco às 13h40. O ônibus desce a Barão do Amazonas, cruza a São Sebastião e entra na Duque de Caxias. Pára numa esquina da praça XV, sobem mais oito passageiros. Desce a Tibiriçá, eu torrando ao sol, de novo.
Nesse momento, o motorista pára. Liga o pisca-alerta, confere a catraca eletrônica, a féria do dia e entrega o volante para outro colega.
A pausa dura 5 minutos. Só então a viagem prossegue. Pela segunda vez no dia, estou na rua São Paulo, no sentido dos Campos Elíseos. “Nossa, que ônibus vazio. Nunca vi acontecer uma coisa dessas”, alegrou-se uma mulher, sentada ao meu lado. O ônibus entra na rua Pernambuco, cruza a Via Norte, entra na rua Pará e rua São Francisco, já na Vila Albertina, como me informa uma passageira.
Depois, o ônibus passa pela Praça dos Trabalhadores, entra na rua Rio Maroni, cruza a General Câmara e continua pela Rio Maroni, até entrar na rua Javari, às 14h10.
Percorre a Javari, entra na avenida Presidente João Goulart, passa pela Domingos Chiarelli Neto e segue pela esburacada Paulino Bin. E aí é preciso ser forte, porque além do sacolejo, um nauseante cheiro de esgoto entra pela janela, vindo de um córrego que corta a via.
Passamos pela Avenida Maestro Alfredo Pires. Aflita, uma senhora faz sinal com a palma da mão aberta. Às 14h25, desço do ônibus no Heitor Rigon, na rua Adriana de Lima, por orientação de uma passageira.
Eu não sabia que esse era o último ponto no bairro antes do retorno ao Centro. Pergunto em quanto tempo vai passar outro. “É de meia em meia hora”, responde a balconista de uma padaria. Na rápida conversa, ela me diz que os moradores “acostumaram-se” com a demora para conseguir ônibus. “Melhorou até. Antes eram só dois, agora são três”, informa.
A volta e os contrastes
Dou uma volta no bairro. O “ponto” de ônibus, na rua José de Alcântara, fica numa calçada tomada por um matagal, onde há um telefone público fétido e pichado, com muito lixo em volta e restos de entulho de construção em volta - inclusive um vaso sanitário, “ótimo” para acumular água e virar criadouro do mosquito da dengue- mas isso é outra história.
Um menino de dez anos empina uma pipa, que mais parece uma folha de sulfite amassada. Um adolescente me diz que vou ter que esperar bastante pelo próximo carro. Continuo a esperar. Nisso, vejo dois garotos muito pobres, de três e cinco anos. Eles vêm na minha direção.
“Minha mãe precisa muito disso aqui”, dizem, apontando para a latinha de refrigerante que eu havia acabado de jogar fora. O garotinho amassa a latinha, levando o mísero pedaço de alumínio como uma verdadeira recompensa.
Por fim, um garoto dos seus 12 anos passa montado em um cavalo - cena que eu só vi no interior de Goiás, no tempo que trabalhei lá como jornalista e que não esperava encontrar em Ribeirão.
Três da tarde: meu ônibus chega, finalmente. Embarco, mas a alegria dura pouco. Logo adiante o motorista pára, liga o pisca-alerta e resolve descer, para urinar e tomar água em um boteco. Faz muito calor.
“Se ele estiver adiantado, ele desce por uns 10 minutos e aproveita para esticar as pernas, porque ‘dá problema’ se ele chegar no Centro antes do horário”, comenta uma passageira, a quem perguntei se tal parada era normal.
“Nesse horário sim”, completou a mulher. Às 15h10, o motorista volta e a viagem recomeça. Às 15h35, o ônibus entra na Avenida da Saudade. No trânsito carregado da Saldanha Marinho, começa um grande entra-e-sai de passageiros (as) com muitas sacolas. O carro fica lotado e abafado.
Dez minutos depois, ufa!, às 15h45, estou novamente na rua Américo Brasiliense. Segundo a Transerp, a linha possui 30,1 quilômetros de extensão (ida e volta), cumpridos em longas duas horas e cinco minutos. É tempo suficiente para viajar de Ribeirão Preto a Limeira, de carro, pela via Anhangüera.
Transerp descarta construir terminais nos bairros
Reinaldo Lapate, gerente da área de transporte coletivo da Transerp, diz que o plano é construir três miniterminais na área central. Um ficaria ao lado do Terminal Rodoviário, outro junto ao Centro Popular de Compras (CPC) e um terceiro no local onde seria o Vale dos Rios.
A idéia é resgatar parte da estrutura que havia antes da extinção dos Terminais Carlos Gomes (em 1999, na praça de mesmo nome) e Antonio Achê ( demolido em 2000 para abrigar o Centro Popular de Compras). Com isso, Lapate espera concentrar os 13 pontos de ônibus que foram redistribuídos pela área central.
- A desativação dos terminais tirou o conforto da população e a impede de usar sanitários públicos. Criou-se, ainda um incômodo com os novos pontos, com a movimentação nas calçadas dos estabelecimentos comerciais. Há também perda de eficiência da fiscalização do transporte. Mas, por enquanto, não há necessidade de construir terminais em bairros, explica Lapate.
Falta de banheiro
Questionado sobre a parada do ônibus do Heitor Rigon num bar para que o motorista fosse ao banheiro, Lapate explica que a topografia de RP obriga a um itinerário em “forma de laçada”, como se fosse um circular, sem um ponto final pré-determinado.
- Esse sistema tem muitas vantagens, com linhas que vão por um corredor e voltam por outro, fazendo uma integração regional. Quando se perde o ponto final ou inicial, o descanso do motorista precisa ser em algum ponto. Mas seria muito melhor se fosse num terminal, comentou Lapate.
Troca de veículos
Lapate também disse que a maioria dos ônibus de RP tinha três portas, na década de 90. Segundo ele, a partir de 1996, houve redução anual de 3% a 4% no número de passageiros e as empresas substituíram os ônibus maiores por outros menores e mais econômicos.
A Cidade também abordou a necessidade de carregar o CIT com o valor mínimo de cinco viagens. Para a pessoa que não se interessa em fazer integração, Lapate disse que fica facultada a opção de fazer o pagamento em dinheiro ao motorista. “O nosso objetivo, com essa cobrança, é fazer com que a pessoa use o cartão”, comentou.
Faltam pontos cobertos, trajetos extensos, carros desconfortáveis
1 As letras das placas com os nomes das linhas, nos pontos, são muito miúdas e dificultam a leitura (e olha que eu enxergo bem).
2 Os pontos de ônibus são precários ou desconfortáveis. Muitos não têm proteção contra o sol e a chuva. Na Praça da Catedral, por exemplo, eu e outros passageiros nos assustamos com a queda repentina de dois galhos podres de uma árvore.
3 Em horários de pico, do Centro ao Jardim São José, outro trajeto que testei, a demora para cobrir 12 km é de 35 minutos.
4 Faltam terminais de integração entre os bairros no transporte coletivo de Ribeirão Preto.
5 As linhas são muito extensas. Muitos dos ônibus que cobrem Ribeirão Verde, Jardim Heitor Rigon e Jardim São José poderiam parar em bairros adjacentes - não precisariam voltar ao Centro. Hoje, 75% das linhas passam pela avenida Jerônimo Gonçalves,
6 Em Jundiaí, minha cidade natal, que tem 350 mil habitantes (200 mil a menos que Ribeirão Preto) existem oito terminais de ônibus e todos os ônibus são de três portas, mais modernos e com suspensão a ar. Denominado SITU (Sistema Integrado do Transporte Urbano), o modelo levou oito anos para ficar pronto, mas representou um avanço, ainda que existam problemas, é claro.