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Especial

Sabado, 21 de Junho 2008 - 15h48

Promotor cobra respostas da Saúde


O telefone toca e do outro lado da linha uma voz nervosa dispara:
- Dr. Sebastião? Estamos com três pessoas morrendo na Unidade Básica e o pessoal do Hospital das Clínicas não quer aceitar a internação. E agora?
- Mas como não quer aceitar? Manda de qualquer jeito. Se não aceitar, me informa que estou indo para lá.
Nos últimos meses, o promotor da cidadania de Ribeirão Preto, Sebastião Sérgio da Silveira, foi desafiado por denúncias como essas e outras sobre filas e demora no atendimento na saúde pública. Ele investigou os dois extremos do problema que mais preocupa 70% dos moradores da cidade, atendidos pelo setor público, de acordo com pesquisa exclusiva encomendada por A Cidade: de um lado o sofrimento do ribeirão-pretano, obrigado a esperar meses por um exame especializado ou semanas por uma internação e do outro, uma infra-estrutura técnica e humana, com suporte da área de pesquisa e orçamento maior do que a média nacional, capaz de causar inveja à maioria das cidades brasileiras.
- Nosso número de médicos na rede pública é maior do que o preconizado pela Organização Mundial de Saúde e temos uma infra-estrutura tecnológica sensacional. Além disso, gastamos mais do que a média das cidades.
O promotor elogia também a divisão da infra-estrutura dos distritos, cada um com cerca de 80 mil habitantes, mas frisa: eles não estão conseguindo resolver os problemas, por exemplo, das áreas de cardiologia e oftalmologia.

Duplicidade de gestão
Depois de meses de estudo das denúncias da população, o promotor concluiu que o sistema municipal tem baixíssima resolutividade, “já que quase tudo que acontece no distrito, é encaminhado para o hospital.” Lembra que alguns casos desorganizam todo o sistema. Como os de pequena fratura, que acabam usando as vagas que deveriam ficar para os problemas mais sérios.
A causa, para ele, é a duplicidade de gestão que gera uma dúvida operacional.
- A vaga é municipal ou estadual? Às vezes tem paciente do município muito doente precisando de vaga, mas acaba indo para outro menos grave da região. Isso é um absurdo!
Sebastião Silveira lembra que a Unidade de Emergência do HC, destina mais da metade das suas vagas para Ribeirão. Quem regula as vagas do município é a central municipal e as da região a central estadual.
- Um dia liguei lá: no controle da central estadual não havia nenhuma pessoa esperando. Já na do município quinze pacientes estavam na fila. Isso não pode ocorrer.

HC: burocracia atrapalha
Além do problema da duplicidade de gestão, outro fator que atravanca o atendimento, segundo ele, é o sistema de internação do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto - que se dedica ao Ensino e Pesquisa para a Faculdade de Medicina - e que é parte integrante do sistema de atendimento pelo SUS.
Silveira lamenta que apesar do HC ter recebido um incremento orçamentário expressivo nos últimos anos, “funciona muito mais em função da conveniência didática dos docentes”. Verificou que se houver necessidade de transferir um paciente para o HC-Campus, por exemplo, o processo não é automático e depende de burocracia interna controlada pelos professores.
- E outra coisa: existe uma quantidade grande de leitos de urgência que estão desativados. Ora, o orçamento nos últimos anos foi multiplicado por dez ou mais. Mas o número de atendimentos se mantém estável. E pior que isso: o número de atendimentos particulares no HC tem se multiplicado em progressão geométrica. Estamos numa situação de guerra, morre gente sem atendimento. A vida humana tem que estar acima de qualquer questão.

‘Se tiver um velho que precisa de UTI, ninguém quer’
Sebastião Silveira lamenta que os hospitais acabem dando prioridade para alguns tipos de doentes em detrimento de outros. E com isso, na prática, selecionam pacientes.
- Se você tiver um paciente com câncer, eu te asseguro que todo mundo vai brigar por ele. Se tiver um velho que precisa de UTI ninguém quer. Não se arruma vaga. Estão brigando por causa de parto. Isso me deixa indignado! - lamenta o promotor da Cidadania.
Silveira contou que o próprio secretário da Saúde do município não consegue os leitos na hora que precisa, porque os hospitais não disponibilizam: “é falta de gestão”, diz ele, que, assegura, não existe falta de leitos.
- Se utilizar os parâmetros de qualquer lugar do mundo, a gente conclui que está sobrando leito aqui. Mas se falta na hora da internação, significa que os hospitais dão prioridade para o que é de interesse deles.
O promotor também não entende como um município em que só a Prefeitura gasta mais de R$ 160 milhões por ano na saúde, ainda existam filas de espera nas unidades básicas.
- Todos que chegam têm que ser imediatamente entrevistados pelo pessoal da retaguarda da enfermagem. Se a pessoa está com pressão alta e dor no peito, pode ser só uma elevação da pressão, mas também pode ser infarte.

Relógio quebrado impede controle de ponto; atestados a granel
Sebastião Silveira não se conforma. Há dois anos, o relógio de ponto do Núcleo de Gerenciamento Assistencial está quebrado.
- Tem médico contratado para trabalhar 8 horas por dia. Só que ele vai lá, quando vai, fica 10 minutos e vai embora…
Outro problema é o número de faltas e atestados médicos concedidos a granel. Em 2007 foram 140 mil faltas, sem falar nas licenças.
- Quem são esses médicos que estão dando atestados? Tem médico que por ano dá quase mil atestados. Mais de quatro por dia. O cara é mágico, né…
O promotor acredita que o município precisaria criar uma carreira, com dedicação exclusiva, para evitar os que vão “fazer bico” no serviço público.
- De que adianta o município ter mais de 600 médicos? Se tivesse metade disso, com o dobro do horário, daria um atendimento muito melhor à população.
Entre as muitas cobranças feitas pelo promotor está essa: “se município e Estado querem mandar na central de regulação, que pelo menos coloquem suas centrais no mesmo local e com o mesmo mapa de vagas. O certo seria ter um local apenas.”

RUBENS ZAIDAN
ESPECIAL para A Cidade

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