Caderno C
Segunda-Feira, 23 de Junho 2008 - 22h48
TRABALHO EM DUPLA Os jornalistas Hossame Nakamura e Fernanda Marx entrevistaram mais de 70 pessoas durante um ano
Uma história contada por imigrantes, filhos, netos, bisnetos e tataranetos da colonização japonesa no Brasil, em especial na região de Ribeirão Preto. O documentário “Hanko – A Assinatura do Japonês” traz à luz um passado que o grande público ainda não conhece.
Muito se falou e ainda se fala sobre as influências italiana, árabe e portuguesa na Alta Mogiana, porém a imigração japonesa ainda é um enigma por uma série de fatores. Desde a ausência de um acervo histórico até o que o produtor e diretor do documentário Hossame Nakamura chama de “problemas de comunicação”.
- A língua sempre foi uma barreira muito grande para a comunidade japonesa na região. Até hoje, muitos moradores de Mumbuca não sabem o português corretamente, explica.
A comunidade de Mumbuca, em Guatapará, é uma das mais tradicionais do interior paulista e seus moradores ainda mantêm costumes milenares.
- Até mesmo no Japão você não vê pessoas que preservam a cultura como em Mumbuca, diz Hossame.
Imperador
O diretor/produtor ficou surpreso, por exemplo, pela reverência dos mais velhos pela figura do imperador, hoje representada por Akihito, pai do príncipe herdeiro Naruhito, que esteve em visita ao Brasil.
- Saíram daqui de Ribeirão dois ônibus para ver o príncipe. Todos muito emocionados. O imperador ainda é uma figura sagrada para eles, diz.
“Hanko” vai ser exibido hoje no Sesc Ribeirão como parte das comemorações do centenário da imigração japonesa. Durante um ano, Hossame e a jornalista Fernanda Marx entrevistaram mais de 70 pessoas, entre integrantes da comunidade nipônica na região e na capital e historiadores.
O documentário é uma parceria entre a produtora de Hossame e Fernanda, a Pseudo Vídeo, e a Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil - Região de Ribeirão Preto, composta por várias entidades japonesas da região.
São mais de 40 horas de gravação que o diretor pretende utilizar como material para outras produções, já que Hanko foi editado para 58 minutos.
- O mais importante é que a gente observa que a região participou de todas as fases da imigração japonesa no Brasil, argumenta.
Experiência
Hossame ressalta que os fluxos de imigração nipônica tiveram três períodos importantes. O primeiro, em 1908, com a chegada do navio Kasato Maru ao porto de Santos, foi o de “experiência”, com resultados por vezes traumáticos para muitos graças ao regime de semi-escravidão nos cafezais paulistas. Esta fase é retratada no filme “Gaijin”, de Tizuka Yamazaki. O segundo período foi durante a Segunda Guerra Mundial e o terceiro no pós-guerra.
- Na verdade, os japoneses só pararam de chegar ao Brasil na década de 70, quando o processo se inverteu, comenta, referindo-se ao fenômeno “dekassegui”, no qual os brasileiros partiram para o Japão enriquecido.
Ribeirão Preto teve papel fundamental na vinda dos primeiros imigrantes, tanto que havia uma consulado japonês na cidade na década de 20 do século passado.
Hanko, explica Hossame, é a assinatura em forma de carimbo utilizada pelos japoneses.
- Quis fazer uma metáfora ao comportamento institucionalizado do japonês. Aquela coisa meio padronizada, ressalta.
Neto de japoneses, o diretor/produtor afirma que aprendeu muito durante a realização do documentário. Ele, que sequer fala japonês, diz que hoje encara seus antepassados com outro olhar.
- O bacana é que a história deles é sempre contada do ponto de vista do grupo. Eles abrem mão da individualidade em favor da comunidade, resume.
Vale lembrar que a produção já foi copiada para o formato DVD e vai ser comercializada pela Pseudo Vídeo. Além disso, graças a uma parceria com A Cidade, os novos assinantes do jornal vão receber “Hanko” como brinde.
Serviço
Hanko – A Assinatura do Japonês
Exibição hoje no Auditório do Sesc às 20 horas
Entrada gratuita
Após a apresentação do documentário o diretor Hossame Nakamura vai falar um pouco sobre o processo de concepção dessa obra.
Inf.: (16) 3977-4477