Rodas e Cia
Terça-Feira, 24 de Junho 2008 - 23h23
BONITO, MODERNO E ECOLÓGICO Aí está o novíssimo Honda FCX Clarity, movido exclusivamente a hidrogênio, liberando apenas vapor de água na atmosfera, com 134 cavalos de potência; no detalhe, o painel futurista com display capaz de exibir gráficos em 3D
Pense nos 330 mil veículos da frota de Ribeirão. Imagine se, de todos eles, não saísse nenhum poluente. Melhor. Imagine que desses milhares de escapamentos saísse só vapor de água, para ajudar a amenizar o tempo seco que vem fazendo.
Isso será perfeitamente possível quando esses veículos forem movidos a hidrogênio. Pode parecer um sonho ainda, mas a mudança de matriz energética vai ter que acontecer se o homem quiser deter o aquecimento global. Resta saber em quanto tempo a mudança ocorrerá.
A indústria automobilística está se movendo nesta direção e já prepara os modelos a hidrogênio. Talvez o mais bem acabado deles seja o Honda FCX Clarity, que começa a ser testado por poucos felizardos do sul da Califórnia (EUA), onde há postos prontos para vender o gás.
O Clarity é um carro médio de desenho parecido com o Civic, rodando só com hidrogênio. Tem autonomia de 430 quilômetros e emissão zero de poluentes. Pelo escapamento, libera apenas vapor de água.
Como funciona
O FCX pega hidrogênio e oxigênio, armazenados em tanques, e os transforma em energia elétrica e água fervendo. A energia move o veículo e o vapor de água é dispensado.
Tudo isso sem perder potência. O jornal americano “The New York Times” testou e aprovou o desempenho dos 134 cavalos do motor do Clarity, equivalente a um convencional de 2.4 litros. O jornal não poupou elogios ao painel futurista ao “silêncio extraordinário” do carro, voando pelas rodovias californianas.
O FCX Clarity ainda é um experimento e a Honda está subsidiando o primeiro lote nos EUA. Ele sairá no sistema de leasing pelo equivalente a R$ 960 mensais, pagos por três anos. O valor final, portanto, será de R$ 34.560.
O grande obstáculo à nova matriz é construir sua infra-estrutura. A dificuldade em viabilizar o hidrogênio como combustível do futuro, hoje, está em fazê-lo chegar ao veículo.
Uma das grandes questões é fazer o combustível chegar aos postos. Ainda não há consenso se a forma ideal seria já entregar o gás pronto ou se os postos teriam um equipamento que faria a eletrólise da água, de forma a obter o hidrogênio. As duas opções, segundo especialistas, ainda são muito caras.
Hidrogênio do etanol
Opção intermediária seria extrair o hidrogênio do etanol. Segundo Henry Joseph Júnior, presidente de energia e meio ambiente da Anfavea, essa solução seria a ideal, por preservar a atual estrutura dos postos e dos carros.
A desvantagem em relação ao hidrogênio puro é que existe carbono no etanol. E ele teria de ser eliminado na forma de gás carbônico, mesmo que em quantidade menor do que acontece na combustão normal do álcool.
Ainda assim, a solução do hidrogênio retirado do álcool talvez seja a mais adequada para uma transição rápida.
O laboratório central da Toyota, no Japão, já está produzindo hidrogênio a partir de uma mistura de água e etanol. O experimento transformou 80% da reação química em energia mecânica. Hoje, um motor a álcool transforma apenas 16% de sua combustão em movimento.
Uma comparação entre o motor a álcool (combustão) e o a hidrogênio (a partir do etanol) revela que o primeiro roda 10 quilômetros com um litro de combustível, enquanto o segundo consome a mesma quantidade a cada 30 km.
Como se vê, o hidrogênio é uma alternativa viável e limpa. Pode não demorar muito, portanto, para vermos nas ruas os carros do futuro.
De onde vem o hidrogênio
O hidrogênio é o elemento mais abundante de todo o universo. Ele constitui 75% da massa de tudo o que existe. Uma fonte comum de hidrogênio é a água, composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio (H2O). O hidrogênio pode ser obtido através da eletrólise da água, que separa as moléculas de oxigênio e hidrogênio. O oxigênio será liberado para atmosfera e o hidrogênio é comprimido. O aproveitamento da água no processo de separação hidrogênio-oxigênio é de 50%. Assim, o resíduo corresponde a 50% de água limpa, mas não potável.
Brasil entra na corrida
Pesquisadores da Unicamp trabalham no primeiro veículo elétrico nacional com células de combustível e o uso do hidrogênio, em um projeto orçado em R$ 400 mil, mas ainda sem prazo de conclusão. Nas ruas do país, ainda não é possível ver veículos a hidrogênio, mas esta é uma situação com prazo de validade pronto a vencer.
A região do ABC paulista deve ganhar, ainda este ano, o primeiro ônibus movido a hidrogênio do país. O veículo está em fase final de fabricação em Caxias do Sul, pela Marcopolo. Eles são equipados com nove tanques com capacidade para até 14 kg de hidrogênio, permitindo uma autonomia de 300 km. Para abastecer esse ônibus, São Paulo está montando um posto experimental de abastecimento. Um eletrolisador fabricado na Bélgica produzirá hidrogênio no momento em que receber eletricidade e água.
ADRIANO QUADRADO E WILLIAN VON SÖHSTEN