Jornal A CIDADE

Júlio Chiavenato

Quarta-Feira, 2 de Julho 2008 - 0h52

Emoções


Dona Ruth no caixão, Fernando Henrique ao seu lado: a foto saiu em todos jornais. Ao lado do caixão, Lula abraça Fernando Henrique, ambos choram: a foto está em todos os jornais e foi assunto de quase todos os colunistas. Sai de cena a sociedade do espetáculo e entra o espetáculo da intimidade. O que é mais íntimo, a morte, se exibe ao consumo da massa ávida por emoções.
Há menos de 20 anos, Guy Debord dizia que tudo era espetáculo: as missas que João Paulo II celebrou foram televisionadas como um show, como a Copa do Mundo ou uma apresentação de Madonna. Com a hiperglobalização que se seguiu ao que os franceses chamaram de mundialização, vivemos agora o que a antropóloga argentina Paula Sibilia denomina espetáculo da intimidade.
No YouTube expomos nossa intimidade. As pessoas se orgulham de se mostrarem em atividade sexual ou defecando, cantando pornografia ou orando compugidamente, xingando ou louvando os poderosos do momento. Segundo Sibilia, “está em crise o conceito de interioridade, a crença em uma vida interior invisível mais verdadeira do que se vê, uma essência superior às aparências que era o que definia cada um”, conforme declarou à revista eletrônica argentina ZOOM.
Perdemos a individualidade para satisfazer o que se poderia chamar de “egolatricidade”. A personalidade e o caráter diluem-se na indústria midiática. A rapidez das transformações sociais e sua influência no comportamento humano são mais rápidas do que a capacidade de reciclagem das ciências sociais; os cientistas sociais grudam-se aos velhos conceitos, incapazes de evoluírem para ferramentas que expliquem melhor um mundo em franca decomposição.
No vácuo do conhecimento os cronistas babam de emoção.

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