Hamilton de Andrade Lemos
Terça-Feira, 15 de Julho 2008 - 0h8 Não dá para imaginar uma infância feliz sem soltar pipas. A pipa está para os meninos como a boneca para as garotas. Um brinquedo tão barato quanto mágico. Você numa ponta, com os pés no chão, e na outra ponta sua alma voando. Em cores e formas variadas, dançando pra lá e pra cá, zombando do mundo e das coisas terrenas.
Minha infância teve muitas delas. Destaque para o maranhão, que era uma variação no formato hexagonal, com grande área de sustentação e rabo de tiras de jornal, que é mais pesado, para dar equilíbrio. Subia fácil e rápido. Mais rápido que preço de feijão. Depois, ficava lá, boiando tranqüilo, recebendo os bilhetes que amarrava na linha, por onde subiam a cada puxadela.
Aí veio um espírito de porco qualquer e popularizou o cerol. Com ele, a arte zen de empinar pipa virou uma disputa mórbida. O prazer de voar foi substituído pelo prazer de agredir, subjugar e roubar a pipa alheia. A insensatez deixa um legado imoral de que é preciso vencer a qualquer preço. Há também uma herança funesta: os restos mortais da linha de cerol cortando pescoços. Uma armadilha presente em qualquer rua, esperando quem passe distraído.
Antes de culpar a molecada, lembro que criança macaqueia os adultos. Os mesmos que pegaram outra invenção, também de voar, e a transformaram em arma, munida de metralhadora e outros artefatos bélicos.
Os dois fatos dizem muito sobre o que fazemos das boas coisas que este mundo oferece. E falam também sobre o que fazemos com as crianças, a partir de nosso mau exemplo e de nossa omissão em educá-los. Mas fazer o quê, se pais afetuosos, responsáveis e atentos estão cada vez mais rarefeitos.