Hamilton de Andrade Lemos
Sabado, 19 de Julho 2008 - 0h50 Cheguei por aqui pela primeira vez numa manhã de primavera. Da rodoviária subi a ladeira da Rui Barbosa – com certa facilidade, aos 20 anos – virei na Amador e logo cheguei na Nove. Havia chovido à noite. As sibipirunas faziam todo o canteiro central um tapete amarelo. O contraste dos paralelepípedos molhados com as velhas árvores dava um ar europeu à avenida. Pelo menos era aquilo o que eu entendia como um “ar europeu”.
Percorri quase toda sua extensão para uma entrevista de emprego numa grande agência de propaganda da época. Sucesso estabelecido, saí à procura de um lugar para passar a noite. O batente começava na próxima manhã.
A partir deste dia, ignorante de pai e mãe sobre a localização das coisas na cidade, elegi a Nove como meu eixo de referência para todo e qualquer périplo. O Prost, ficava na Nove. O Boca de Siri também. A pensão era perto, a três quadras da Nove. A agência, na Nove com a Independência.
O primeiro banco também era na Nove. E o caminho do shopping, que iniciava na Nove, mostrava que a cidade terminava logo à frente, quando raleavam os prédios comerciais.
Nestes 20 e poucos anos, vi a Nove mudar um tanto. Algumas árvores caíram, algumas receberam luzes no Natal, casas viraram lojas, outras bancos, os melhores points fecharam e as moças a quilo tomaram conta.
Melhor que tombaram a avenida. Ao menos algo de útil fizeram. Antes que eu e mais uma pá de gente perdesse este eixo de localização e de afeto pela cidade. Espero agora que a Nove pare de ser modernizada. Afinal, como Chaplin ou Jerry Lewis, algumas coisas são boas como estão, seja em que tempo estejam. E a Nove de Julho é uma destas, qualquer que seja a data.