Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Segunda-Feira, 21 de Julho 2008 - 21h31

Obscena


Às vezes tenho vontade de escrever alguns palavrões neste espaço. Não o faço porque esta vontade tenha passado. É falta de coragem mesmo. Ou pudor em me expressar da forma mais franca e objetiva. Entre amigos ou junto aos familiares (dos mais velhos, jamais) o palavrão abrevia argumentos, por definir claramente o sujeito da discussão. Soltando um “querem saber? Fulano é um ladrão filho da...”, gastamos menos tempo e saliva.
Dercy tinha esta coragem em público. E fez uso dela por um século, com dignidade heróica. Contra a hipocrisia gritante, respondia escandalosamente com um palavrão. Dizia com cada letra o que nós, contidos e educados, pensávamos, mas não conseguíamos falar.
Para amenizar, havia humor em seus palavrões. Sempre causavam risos, talvez para aliviar a tensão que o uso destas palavras causava. Sua boca surpreendia. E não havia o que fazer: Dercy era anterior à censura.
Onde não fosse possível se fazer ouvir, escandalizava com o resto do corpo. Tirava os peitos para fora na Sapucaí, levantava a saia num programa de televisão, mostrava a língua e apavorava aos que se escondiam sob a máscara da impostura. Mas Dercy não tinha máscaras.
É bem verdade, segundo seus mais próximos, que na vida privada seu temperamento era mais refreado e sério. A Dercy do escracho era um personagem que ela própria teria inventado para se destacar. Acabou criando uma categoria própria, com uma única integrante: Dercy.
Agora perdemos a voz que mandava os canalhas tomarem naquele lugar e aos enganadores que fossem à m... Sem a coragem de Dercy, ficaremos mudos e com cara de b.

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