Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Quinta-Feira, 24 de Julho 2008 - 23h45

No seu quadrado


Se você ainda não viu a dança do quadrado, não perdeu muita coisa, a não ser mais uma moda do populacho que deve marcar mais ou menos alguma época de sua vida. Como a macarena, a lambada ou algo assim.
Perceba que aventei a possibilidade de você ter visto a tal dança, já que ouvi-la gera um aproveitamento ainda menor de sua expressão. Consiste em colocar vários desocupados em quadrados respectivos, pequenos, e obrigá-los à imitação do líder, que por sua vez se ocupa de fazer trejeitos de personalidades de nossa época. Mais que isso não consigo definir. É preciso um considerável teor alcoólico para apreciar o gênero.
Fora a questão estética da coisa, a onda da dança do quadrado gerou ao menos algo de bom. Ou não. Seu refrão “cada um no seu quadrado” virou bordão, como síntese do individualismo que domina as relações sociais.
Não se dança mais com um parceiro ou parceira. Mesmo para dançar é preciso preservar seu espaço próprio, mesmo que um pequeno quadrado, mantendo a independência e a liberdade de se movimentar sem compromisso com as necessidades e direitos do outro.
Com o universo em expansão, em breve, poderemos todos viver sem esbarrar em nenhum outro ser humano. Ninguém terá que suportar ninguém. Poderemos conviver com nossos próprios defeitos. Seremos nós mesmos, longe das críticas.
Quem sabe então se, inteiramente sozinhos, nossos órgãos e células decidam por também viver cada um no seu quadrado. Células nervosas não terão mais tolerância às cardíacas, as adiposas evitarão as epiteliais, indo cada grupo viver somente entre os seus. Afinal, o outro traz tanto problema...

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