Especial
Sabado, 9 de Agosto 2008 - 14h53
NAVEGADOR moderno O aventureiro que passou cem dias entre o céu e a terra tem muitos novos projetos: quer instalar energia inteligente no Pólo Sul, usando gerador movido a álcool. Também vai levar crianças
O comandante de embarcação Amyr Klink, aos 47 anos e após 29 viagens em canoas e barcos, cortando rios e oceanos, está prestes a realizar o maior sonho de sua vida: ter um pé permanente no continente antártico. Ele vem alimentado essa expectativa há mais de vinte anos e agora, ao que parece, vai dar certo.
Em Ribeirão Preto na semana passada, onde fez palestra no sexto andar do prédio da ACI (Associação Comercial e Industrial), Amyr explicou que o governo inglês está privatizando algumas bases antigas que possui na Antártica. Então, procurou informações mais detalhadas.
“Felizmente, conheci a mulher que cuida do programa. De cara, implorei para que ela me alugasse, emprestasse uma base ou fizesse algum tipo de concessão. Eu toparia tudo. Ela, então pediu que eu encaminhasse uma proposta de ocupação”.
Amyr soube também que entre os lugares oferecidos estava a base de Mae Point, na Baía da Glória.
“Fiquei maluco, doido mesmo. As bases antigas da Inglaterra na Antártica são os lugares mais lindos do mundo. A da Baía da Glória, então, é deslumbrante. Eu estive lá, pessoalmente, conheci a casinha abandonada. Se pudesse, não teria saido nunca da base. Eram locais usados por caçadores de morsa e leões-marinhos. Depois, foram se tornando obsoletos”.
Amyr explicou que levou seis meses para elaborar um projeto de utilização da área e, finalmente, enviou ao governo britânico. Felizmente, deu resultado.
“Eles ficaram tão eufóricos que prometeram usar meu proejto de ocupação como modelo”, dissse.
Agora, há um mês, Amyr recebeu o sinal verde de posse. Seu estusiasmo cresceu ainda mais. Ele não consegue tirar o projeto da cabeça. A possibilidade de fincar um pé no Pólo Sul renovou suas energias.
A base de Mae Point é, na verdade, um pequeno barracão de 50 metros quadrados. “É uma chacrinha na Antártica”, brinca.
Educação
Enquanto redigia o projeto de ocupação, Amyr procurou aconselhar-se com pessoas experientes. A sugestão que mais ouviu foi no sentido de usar a base como fonte de pesquisa. Admitiuque não gostou da idéia.
“Os americanos gastam US$ 200 milhões por ano em pesquisa na Antártica. Eu vou fazer o que lá, reinventar a roda?”, questionava.
Muito bem informado, antenado, ele sabia que há escolas em todo mundo, incluindo o Brasil, interessadas em projetos ligados à área de educação na Antártica, como glaciologia, artes plásticas e matemática.
“Hoje tem escola com verba para projetos na Antártica. Só que não existe estrutura logística para isso. É o que pretendo fazer, criar a condição logística para transportar grupos de até vinte pessoas para a base, durante os quatro meses e meio de Verão. Cada viagem terá a duração de duas ou três semanas. Serão levadas crianças a partir de sete anos.
“Não há o menor risco. Lá é que elas estarão seguras”, aposta Amyr.
Amyr está indo para base onde passará os próximos dois meses, como um pedreiro polar. “Vamos trocar vidro, arrumar o telhado, enfim, fazer o que tem que ser feito”. Só que, com necessidade de voltar, Amyr deixará quatro amigos cuidando da reforma.
Navio francês
Amyr Klink quer usar um navio de turismo francês para levar seus convidados para a base de Mae Point. Num navio de turismo o preço da passagem cai extraordinariamente o que tornará o projeto bastante viável. Isso, até Amyr construir seu próprio barco para chegar até a Baía da Glória.
“Usar um navio de pesquisa para levar gente para a Antártica é impensável, de tão caro”.
E o álcool chega ao Pólo Sul
O maior desafio de Amyr Klink, agora, é dotar a base de Mae Point com energia durante doze meses no ano. E ele afirma que pretende instalar o que chama de energia inteligente.
Amyr diz que poderia optar por energia eólica mas não seria confortável levantar uma imensa torre no local. “Não se trata de um sítio histórico mas o ingleses certamente não iriam gostar de ver uma torre eólica no local”.
Por isso, uma das soluções é usar abastecimento com sistema de geração térmica ou com uma célula de combustível através de reforma molecular.
“Mas o que eu quero mesmo é botar um gerador virando 24 horas por dia, usando álcool. E tem muita gente interessada nesta história. Os norte-americanos, por exemplo, não acreditam até hoje no programa de combustível alternativo”.
Amyr explica que surgiu uma proposta interessante do pessoal da UNICA (União de Agroindústrias Canavieiras) para a execução do projeto.
Amyr também sugeriu a fabricação de motor de popa flex, que seria utilizado na Antártica. “Poluiria bem menos o ambiente”.
Uma empresa nacional já está dominando a técnica para criar uma ignição que não necessita do uso de gasolina para a partida do motor a alcool. Mas são detalhes com os quais não quero me envolver. Eu quero é botar meninos e meninas no Pólo Sul”.
Amyr quer acionar, já no ano que vem, o projeto Mae Point.
Terras sem estrada e energia
O relacionamento de Amyr Klink com investidores, loteadores e especuladores de terra em Paraty (RJ) não é dos melhores. Dono de quase 2 milhões de área, o navegador não vende, não aluga, não permite que se abram estradas e muito menos que se coloque energia elétrica em suas propriedades.
“Todos loteamentos e resorts feitos em Paraty, não deram bons resultados. Os ex-donos, hoje, estão com uma mão na frente e outra atrás. Minhas terras sem estradas, energia elétrica, sem nenhum melhoramento valem mais do que todas às demais áreas”.
Amyr anunciou que pretende lotear uma de suas mais importantes propriedades, as terras que costeiam um belo trecho da praia de Jurumirim, com quatro quilômetros extensão. Mas com uma condição: o comprador não poderá construir. Sua missão principal será preservar o local, cada um cuidando bem de seu pedaço.
“E tem comprador para isso. Se lotear áreas de 20 mil metros quadrados, o proprietário poderá levantar quantas casinhas de sapê quiser. Tem quem pague até US$ 4 milhões por um pedaço de terra preservado na praia.
Outra idéia de Amyr: vender as mais belas e valiosas árvores de suas terras, com a emissão de certificados. “Assim, as terras terão vários donos”, disse.