Especial
Sabado, 9 de Agosto 2008 - 14h57
O REPÓRTER e o menino Valdeir movimenta a tarde de Euclides e mexe com conceitos de “pai e filho”, além de fazer “arte” no parque
Filhos, para que tê-los? É uma velha dúvida - mais antiga que a do poeta que a consumou num verso - dos mais famosos da literatura brasileira. E como Vinicius de Moraes, e como eu, certamente muita gente já estacou diante do dilema.
Pois bem, pelo menos em parte, eu iria conseguir uma resposta para tal pergunta, incumbido de uma missão-reportagem. Uma homenagem ao Dia dos Pais. Por três ou quatro horas, eu “adotaria” uma criança.
Tenho 32 anos, continuo solteiro e ainda não sou pai. Igualmente, não conheci meus pais biológicos. Minha mãe adotiva, que morreu há cinco anos, era solteira e me criou como único filho. Portanto, também não tive a figura paterna, mesmo que adotiva.
Como não tive irmãos, também não tive sobrinhos. Por isso, talvez, tenha sentido um impacto tão grande ao conhecer, na tarde de quinta-feira, Valdeir Humberto Reveli Veloso, de 12 anos.
Com a concordância dos pais e dos avós, saímos da casa dele, no Ipiranga, para uma tarde no shopping, acompanhados pelo fotógrafo J.F. Pimenta.
No caminho, o garoto - muito mais esperto do que eu era há 20 anos - começa a me ensinar a mexer com um aparelho MP3.
“Li o manual e aprendi a mexer com ele em meia-hora. Tenho 29 músicas, mas cabem 400 aqui”, me conta Valdeir. Ponho um dos fones de ouvido que o meu “filho” prodígio carrega, para saber o que ele anda ouvindo.
Rápido como os cálculos matemáticos que adora fazer na sexta série B da Escola Estadual Professor Walter Paiva, meu “guri” carrega um repertório vasto, naquele minúsculo aparelho.
“Depois da lição, eu pego o meu MP3 e faço um ‘pouquinho’ de bagunça”, me diz o garoto. O que será que me espera?
Estamos no táxi. Ouvimos desde Chris Brown (cantor americano de música pop e hip-hop) passamos por Shakira (colombiana conhecida mundialmente por seus movimentos da dança do ventre), transitamos pela voz de Rihanna (ícone atual da dance music com o hit “Don’t Stop The Music”) e chegamos ao grupo nacional NXZero (que cantam o sucesso “Pela Última Vez”).
Ele sabia todas as letras de cabeça. Eu, apenas alguns trechos. Confesso que surpreendi-me com a “evolução dos tempos”, mostrado pelo conteúdo do MP3 do meu “filho”.
Fico me achando “meio careta”, lembrando que a minha geração, há 20 anos, se divertia ao ouvir as músicas inocentes do Trem do Alegria (aquela do Piui Abacaxi) do Balão Mágico (Superfantástico) da Angélica (Vou de Táxi) e da Xuxa (Ilariê e por aí vai). Mas não o Valdeir. Ele aprendeu a mexer no computador com nove anos e já sabe escolher as músicas que gosta de ouvir.
O assunto muda e começamos a falar de hábitos, de roupas, de calçados. “Minha mãe quer que eu ponha a camisa dentro da calça. Como eu não gosto, ela fica brava”, me explicou Valdeir, o meu “filho” de roupas transadas.
Tênis, camiseta para fora da calça e calça jeans. Era assim que o meu “filho” estava, alegre e faceiro.
Ele inicia um dialógo assim: “Quando eu era criança...!” E eu respondo, de bate-pronto: “Mas não é mais? E ele devolve: “Os adultos me chamam de pré-aborrescente (sic)”.
Me diz que não tem namorada, mas que já deu um beijo ‘de selinho’ numa menina. Envergonha-se e questiona, temeroso: “O que você está escrevendo aí”?
No parque de diversões do Novo Shopping, a primeira parada do meu “filho”: o Barco Viking. Sabe aquele ‘negócio’ que vai pra cima e pra baixo, que todo mundo na faixa dos 30 como eu, já experimentou numa excursão ao Playcenter (em São Paulo)?
“Fala pra moça parar, fala pra moça parar”, diz meu “filho”, meio enjoado com a agitação do brinquedo. Para minha surpresa, me saio melhor que ele! Mas o “melhor” do dia ainda estaria por vir.
Não basta ser pai. Tem que participar
EUCLIDES OLIVEIRA
Torcedor do São Paulo Futebol Clube, Valdeir, meu “filho” por algumas horas, fica deslumbrado com as camisas de times famosos do exterior como o Barcelona (Espanha), do Boca Juniors (Argentina e da Internazionale (Itália), expostas nas vitrines.
Se eu fosse o pai, acho que teria realmente comprado. Sensibilizei-me com os olhos brilhantes dele. Mas tive que falar que a verba era curta e que em “outro dia” voltaríamos àquela loja.
“Eu quero o tênis mais louco”, enquanto olhava para modelos de R$ 139,99 e de 179,99 - ambos de marcas conhecidas.
Apesar do impulso consumista, meu “filho” é sensato: chega a dizer que trocaria um tênis de R$ 150 por três de R$ 50. “Se fico com um tênis de marca é perigoso alguém ‘de maior’ querer tomar de mim”.
É a hora de abrir a carteira, pela primeira vez. Dou R$ 2 e brinco dizendo que o valor seria para a “semanada” dele.
Mais uma vitrine e o “paizão” aqui fica assustado com o preço dos relógios de marca que ele estava querendo comprar. Meu “filho” também não tem celular. “Às vezes, a grana ‘tá’ curta”.
Paramos também um bom tempo numa loja de eletroeletrônicos. Admirou-se com uma TV LCD de 47 polegadas. Depois, numa vitrine, Valdeir “encantou-se pelos MP3 e MP4 expostos (e eu lembrando que brincava de carrinho).
Ele demonstra saber de tudo, com exatidão. Diz que o MP3 tem rádio, microfone e gravador de voz. Pergunto: “E o tal do MP4?” E o meu “filho” me ensina: “Faz tudo o que faz o MP3 e ainda grava músicas e clips”, comentou.
Se eu tivesse dinheiro e estivesse com meu filho, de fato, correria o risco de sair do shopping com os bolsos vazios. “Olha, tem um (MP3) aqui que tem games. Só que esse é mais caro”, explicou. Vamos aos preços: tal aparelho custava R$ 299.
Meu “filho” me mostra um MP3 de 2GB de memória (que custa R$ 189), dizendo que o mesmo custa apenas R$ 20 a mais que um MP3 com apenas 1GB (de R$ 169).
“Um cartão de 1GB avulso não custa só R$ 20. Então, caro é você comprar algo por R$ 299 quando existe algo por R$ 169 que pode ter igual ou melhor tecnologia”, explica Valdeir.
Como eu ainda não tenho um equipamento desses, agora já sei a quem pedir palpites para comprar um MP3 ou MP4. É sério.
Também passeamos numa loja de brinquedos. Ficamos um bom tempo por lá, vendo carrinhos em miniatura, que eu também adorava quando criança.
Ser pai deve ser maravilhoso”, imaginei. Até então, tudo perfeito. Mas faltam-me pernas para dar conta do pique dele.
‘Falaram para eu te atazanar’
Andamos bastante pelos corredores do Novo Shopping, na tarde de quinta-feira, quando levei “meu filho” Valdeir para passear, das 14h30 às 18 horas. E ele me solta esta:
“Ah, então é para eu me comportar como se fosse seu filho? Me falaram que era para eu atazanar a vida do jornalista”, disse o garoto, aos risos.
Eu ainda não sabia o que ele queria dizer com isso, mas a resposta não demorou a vir.
Depois que ele começou a me chamar de “pai” e eu comecei a chamá-lo ele de “filho” (de tal forma que estranhos não conseguiam perceber que tudo não passava de uma reportagem), entendi melhor as situações cotidianas vividas pelos verdadeiros pais.
Achei que teria melhor controle sobre o Valdeir, segurando-o pelas mãos. Ledo engano: para cada vitrine ou algo que lhe enchesse os olhos, o “pai” aqui era puxado tal como se fosse uma corda, com a força de quem está começando a viver.
Chegava a ser engraçado. Até me diverti com a situação, lembrando que eu era assim na idade dele. Nada de problemas. Só estripulias. Eu e o fotógrafo estamos com muita sede. Depois de muita insistência, lanchamos num fast food. Foi um dia feliz, com direito a monstrinho de brinde (para ele, é claro).
‘Me diverti bastante’ diz ele
No shopping, o meu “filho” Valdeir também quis experimentar algumas daquelas “diversões eletrônicas”, pagas com cartões magnéticos carregados com créditos.
O dinheiro estava no fim (só haviam sobrado R$ 7) e disse eu a ele que só poderíamos brincar em um brinquedo.
Sentamos numa geringonça com dois revólveres de água, cujo objetivo era atingir orifícios que se iluminavam de forma alternada, para que dois carrinhos fixados na vertical subissem à medida que os disparos fossem certeiros.
Claro que eu perdi a disputa, evidemente. Meu filho comemorou o triunfo com muita alegria. “Você é muito lento”, zombou o garoto.
Depois, ele disputou sozinho com a máquina e também ganhou, em outras duas vezes. Conseguiu 109 tickets-bônus. Trocou por brindes. Para ele e para mim, um convívio suave, prazeroso.
“Me comportei como se você fosse meu pai. Foi legal porque me diverti do mesmo jeito que se estivesse com a minha família”, me disse o garoto no retorno à sua casa. Aos risos, Fabiana Cristina Reveli, a mãe dele, de 30 anos, disse para eu pensar em fazer vasectomia depois da experiência. O pior é que não: gostei da sensação e já tenho uma boa resposta para a pergunta do poeta.
Pai quer ser amigo dos filhos
Na praça de alimentação do Novo Shopping, a reportagem de A Cidade conversou com o consultor de negócios João Carlos Soares, de 34 anos. Acompanhado da esposa Lilia Silva Prado Soares, ele tomava lanche com os filhos João Carlos, de 13 anos, e Pedro Henrique, de 11.
“Esse (o garoto Valdeir) está te atentando mesmo”, disse Soares, enquanto eu tentava-lhe fazer algumas perguntas.
Apesar da insistência do meu “filho” em atrapalhar a conversa, o consultor também disse que era “pai novo” e que procura fazer todos os programas possíveis com os dois filhos.
“Brinco com eles na rua, jogamos bola, passeamos juntos. Fomos também no João Rock”, contou o pai.
Segundo Soares, que é da mesma geração que eu, a Internet e o excesso de informação fazem com que as “crianças” de hoje, sejam mais espertas que as que viveram na década de 80.
“Nunca bati nos meus filhos. Na nossa geração, apanhávamos mais. Tento ser mais amigo do que pai, o que só faço quando realmente preciso. Dei um MP3 para eles, e souberam mexer sem ler o manual. Tem coisas que eu preciso perguntar para eles. É um aprendizado constante”, comentou o pai.