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Caderno C

Segunda-Feira, 11 de Agosto 2008 - 22h55

A Arte das Ruas

Régis Martins
WEBER SIAN A Arte das Ruas INTERAÇÃO Obras do artista plástico dialogam com a realidade

A obra do paulistano Alexandre Orion é a prova de que a arte não tem limites de tempo e espaço. Suas intervenções urbanas invadem muros, paredes e túneis para registrar a vida dos moradores de uma grande cidade e, ao mesmo, os problemas inerentes às metrópoles do terceiro mundo. O mais curioso é que, de uma forma ou de outra, o artista consegue trazer este trabalho das ruas para a galeria.
Em Ribeirão Preto, a Adearte apresenta de hoje até 13 de setembro, as obras da série Metabiótica, que reúne grafite e fotografia e produz um efeito inovador.
Alexandre, que está na cidade para o lançamento da mostra e para uma participação especial no Salão de Arte de Ribeirão Preto (ver box), conta que levou quatro anos para desenvolver o projeto. Cada imagem é o resultado de um processo que levou meses.
O artista estudou os locais da cidade, o comportamento das pessoas e faz um desenho em muros e paredes, a maioria de terrenos abandonados, para compor o cenário.
- Então, com uma câmera na mão espero pela interação espontânea de personagens reais, explica o artista.

Realidade e ficção
Alexandre ressalta que, munido de uma câmera Canon analógica e filme preto e branco, quis reunir realidade e a ficção dentro do campo fotográfico. Pintura e fotografia dividem um mesmo espaço como dois organismos inseparáveis, mas também incompatíveis entre si.
- Tudo é verdade e nada é posado. Mas ao mesmo tempo, o resultado visual é falso, argumenta.
Aos 30 anos, Alexandre é um talento reconhecido no Brasil e em vários outros países e começou a realizar seus primeiros trabalhos na adolescência, quando andava de skate e fazia parte do movimento hip-hop de São Paulo.
- Mas desde o início já sabia que seria um artista plástico e não um grafiteiro, garante.
Mas o paulistano que acabou formando-se em Artes Visuais não tem nada contra grafiteiros e pixadores. Ao contrário, defende a ação desta turma como um fenômeno social e não mero vandalismo contra o patrimônio público.
- A pixação é uma mensagem das classes menos favorecidas em forma de crítica e provocação. É uma reação à vida que levam, explica.
Paradoxalmente, o artista defende a limpeza das áreas grafitadas já que é contrário à idéia de que São Paulo “é uma galeria a céu aberto”.
- Isso vai contra a própria idéia do grafite, que é feito justamente para durar pouco, informa.

Poluição
Os próprios desenhos realizados para a série “Metabiótica” - que ganhou até um livro lançado pela Editora Via das Artes - já não existem mais nas ruas de São Paulo.
- O curioso é que os donos de um terreno em que fiz uma intervenção, pintaram o muro mas deixaram o desenho de um cavalo. Mas aí a prefeitura foi lá e pintou tudo, afirma.
Mas em tempos de “cidade limpa”, em que a prefeitura de São Paulo realizou um amplo trabalho contra a poluição visual, Alexandre denunciou por meio de sua arte um outro tipo de problema da metrópole: a poluição do ar.
Em 2006, criou “Ossário”, intervenção realizada em um túnel de São Paulo que compõe seu novo trabalho, a série Arte Menos Poluição. Durante 17 madrugadas, utilizando apenas retalhos de pano, removeu parte da grossa camada de fuligem que impregnava as laterais do túnel.
Neste processo de limpeza, Alexandre desenhou à mão 3.500 caveiras nas paredes, enquanto que todo o seu trabalho era registrado por uma equipe de filmagem.
- Tinha que usar uma máscara, porque em dez minutos, você não tem mais saliva por causa da fumaça dos carros, recorda.

Polícia
Durante a realização da obra, o artista foi parado pela polícia que não pode fazer nada, já que Alexandre estava lá simplesmente limpando as paredes do túnel. Seu trabalho acabou chamando a atenção da prefeitura de São Paulo que, dias depois, lavou todo o local impregnado pela fuligem.
- Fazia dois anos que a prefeitura não limpava o túnel e o mais incrível é que lavaram apenas a área de intervenção. E isso é censura, comenta.
Se não bastasse, o artista lavou os panos que utilizou para fazer os desenhos, retirou toda a sujeira e misturou a fuligem seca com tinta acrílica. Com este material prepara as telas para a segunda fase de Arte Menos Poluição. Ou seja, painéis com desenhos estilizados de automóveis de todos os tipos. Os mesmos automóveis que provocam toda aquela sujeira no ar.


Projeto Parede
Artista participa do Sarp
A exposição Metabiótica que abre hoje na Galeria Adearte também faz parte do circuito de mostras paralelas do 33° SARP - Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional – Contemporâneo, de 15 de agosto a 28 de setembro de 2008, no Marp - Museu de Arte de Ribeirão Preto Pedro Manuel Gismondi.
O artista foi convidado pela direção do museu para a realização de uma intervenção do chamado Projeto Parede com um trabalho inédito, que poderá ser visto a partir do dia 15, no museu que fica na esquina das ruas Barão do Amazonas e Duque de Caxias, no Centro de Ribeirão.


SERVIÇO
Metabiótica
A partir de hoje até 13 setembro
Adearte Galeria
Rua João Penteado, 920
Inf.: (16) 3514-8123

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