Jornal A CIDADE

Vicente Golfeto

Sexta-Feira, 15 de Agosto 2008 - 0h16

O escambo das Farc


Sobre a presença de guerrilheiros das Farcs em território brasileiro, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, comandante militar da Amazônia, em matéria publicada na imprensa paulistana, diz: “eles vêm para se abastecer no comércio e, muitas vezes, a moeda utilizada é pasta de cocaína”.
Já falamos que a diferença entre o administrador e o líder é muito maior do que parece. Quando o administrador fala a gente ouve. Quando o líder fala a gente vê. E este general começa a despontar como líder que o povo brasileiro gosta de ouvir. Claro que, se quiser continuar falando, deve afastar-se do Exército. O Brasil tem uma experiência nada satisfatória com a intromissão de militares em assuntos civis. Mas militares, deixando a farda e disputando o voto popular – colocando-se como civis, portanto – podem perfeitamente ser alternativas. Dwight Eisenhower, nos Estados Unidos; Charles de Gaulle, na França – ambos generais – foram eleitos presidente da república destes países.
Mas não era este o assunto que eu desejava tratar hoje. Era a opinião do general Heleno sobre o meio de pagamento utilizado pelas Farc. No caso, pasta de cocaína. Expulsa-se a moeda e entroniza-se o escambo. Como nos tempos da economia primitiva. Que, entretanto, ainda perdura.
Sal já foi moeda. Quando o pagamento era uma pequena quantidade, pagava-se com o sal. E daí vem salário. Mas cacau já foi utilizado como moeda. Ainda hoje – como que a ficar no inconsciente coletivo – costuma-se dizer que cacau é sinônimo de dinheiro. Por último, pagava-se – quando em grande quantidade – com gado. Em latim, pecus. É por isto que se tem peculato, o crime do servidor público que desvia dinheiro do Estado. Tem-se também pecúlio, pecúnia, este sinônimo de dinheiro. Mas de pecus também vem pecuária.
Hoje paga-se com pasta de cocaína. Mudam-se os tempos, mudam-se as moedas. Mas o escambo permanece.

  • Imprimir
  • Enviar

É proibida a reprodução do conteúdo dessa página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso sem autorização escrita da Empresa Jornalistica Orestes Lopes de Camargo S\A
ARZ