Marcelo Canellas
Sabado, 16 de Agosto 2008 - 21h1 Tenho 42 anos. Minha idade é a prova da relatividade das coisas. Em 1950, de acordo com os números do IBGE, a expectativa de vida do homem brasileiro, ao nascer, era de 42 anos. Ou seja, se vivesse em 1950 com a idade que tenho hoje, eu estaria no ocaso da vida. Ainda que existam outras razões, me bastaria essa para gostar muito de ter 42 anos em 2008.
Dia desses, uma revista semanal decretou que a vida, agora, começa aos 50. Gostei. Já passei por poucas e boas, e ainda nem comecei a viver. Lembro de um churrasco, lá em casa, em comemoração aos 40 anos do meu pai. Eu, então um guri de 10, assisti comovido ao brinde dos amigos que, aos gritos de “a vida começa aos 40”, levantavam seus copos de cerveja enquanto mastigavam nacos de costela. Meu pai parecia feliz, mas eu me condoí: coitadinho, o pai tá ficando velhinho... Pois hoje sou mais velho do que o meu pai daqueles dias.
Felizmente, já não sei mais quando a meia-idade começa. Ainda fico chocado quando leio as reflexões de Freud sobre o complexo de Édipo, em que ele fala da admiração que tinha, quando criança, pela jovem mãe bonita e atraente, e do desprezo que sentia pelo pai, um velho de... 42 anos!
Esforço-me muito para que os meus dois filhos, com a mãe bonita que têm, não tenham de mim a mesma impressão que o menino Freud tinha do pai dele. Além do quê, levei um susto ao ser apresentado ao colesterol alto. O safado do médico queria me cortar a carne vermelha. Negociei com ele a supressão da gordura da picanha. E ficamos conversados.
Em compensação, tive de aumentar minha ração de verduras, e já estou botando os bofes pra fora com tanta corrida e ginástica. Mas vale a pena, já não arrasto a língua correndo atrás da gurizada. Para que mais serviria envelhecer com qualidade de vida, senão para aproveitar momentos como esses?
Envelheçamos, então. Ainda vou longe, sem medo de ser sessentão, setentão, oitentão... As conquistas da medicina estão aí para ajudar. Viva o antibiótico! E viva o viagra! Mas, se não for pedir demais, será que não dá pra descobrir também a cura da calvície?
*Marcelo Canellas é jornalista e repórter especial da Rede Globo