Jornal A CIDADE

Especial

Sabado, 16 de Agosto 2008 - 21h57

Cacilda Galante reaprende a viver

WEBER SIAN Cacilda Galante reaprende a viver SAUDADES DE MARCELA Filha deu “lição de fé, coragem, crença na vida: foi um presente de Deus”

Aos 37 anos e depois de três meninas, dona Cacilda decidiu: não terá mais filhos. Fez laqueadura de trompas e só um milagre poderá fazer com que ela tenha um novo herdeiro. Agora, espera os netos. Ao comentar sobre o assunto, ela ri. Milagre, definitivamente, é uma palavra que faz parte do cotidiano de Cacilda. “Agora não posso mais, a fábrica está fechada. Só se for mesmo a vontade de Deus. E a gente sabe que ela é forte, né?”, brinca.
Estamos falando de Cacilda Galante Ferreira, mãe de Marcela de Jesus Ferreira, a menina de Patrocínio Paulista (115 km de Ribeirão) que nasceu sem cérebro, contrariou a medicina e permaneceu viva por exatos 1 ano, 8 meses e 12 dias. Um recorde.
Não há notícias, em todo o mundo, de um caso de anencefalia no qual a criança tenha resistido tanto. “Ela é muito especial. Até hoje, os médicos não conseguem explicar. Muitos disseram que ela viveria minutos, depois horas, depois dias. Teve um médico que disse que rasgaria o diploma se ela vivesse mais que quatro meses. Gostaria de saber se ele cumpriu a promessa”, diz, entre risadas tímidas.
Cacilda, de olhos alegres e vivos, cabelos pretos na altura do ombro, vive em Patrocínio Paulista com seu marido, Dionísio Justino Ferreira, 48, e suas duas filhas vivas, Débora (19) e Dirlene (16). A família tem um sítio de 3,5 alqueires na zona rural da cidade de onde tira seu sustento. Toda a família menos Débora – que faz faculdade de Pedagogia e estava cumprindo estágio na Apae no momento da entrevista – falou com o A Cidade em entrevista exclusiva.
Segundo Cacilda, o difícil, agora, é recomeçar a viver. Ela ainda guarda em casa todos os objetos utilizados por Marcela, incluindo roupas e berço. Só doou a conhecidos materiais que a pequena nunca havia utilizado. “A gente sente um baque, uma perda. Ainda estou me acostumando com a idéia de viver sem ela”, disse.
Com a morte de Marcela, ocorrida no último dia 1º de agosto, Cacilda perdeu o benefício de R$ 415 que ganhava do Governo Federal por conta do problema da menina. A família vive agora somente com o que produz no sítio.
Quem cuida da terra é o seu Dionísio. Tímido e cordial, mas de poucas palavras, ele se queixa de dores nas costas que atrapalham a lida. Na hora de ensacar e carregar o caminhão com café, é uma tortura, diz ele. Mas é assim toda semana. Ele produz banana, mandioca, laranja, café e leite, tudo vendido na própria Patrocínio Paulista, na feira de domingo. É com esse dinheiro – mais ou menos R$ 500 por semana - que a família vive.
Cacilda fica na cidade enquanto o marido cuida das terras. Desde a morte de Marcela, ocorrida em 1º de agosto, ela tem tido muito tempo livre. Tanto que não sabe o que fazer com ele. “Vamos tocando a vida como Deus quer. Cuidar da casa, da família, as minhas obrigações. É isso que tenho feito”, disse.
Dirlene, que puxou a timidez do pai, resumiu tudo o que tinha a dizer em uma única frase. “Sinto falta dela. Fico meio perdida sem ela por perto”, disse.
Durante a conversa, Cacilda diz que fica feliz pelo fato de a filha ter se tornado um ícone na luta anti-aborto. Com emoção na voz, ela afirma que faria novamente a opção de ter Marcela, mesmo estando ela condenada pela medicina a uma vida curta e sem sentimentos. “A hora de cada um é vontade de Deus. Marcela cumpriu seu tempo e posso dizer que, nos 1 ano e oito meses que estivemos juntas, não houve um único momento de infelicidade”, disse.
Com um leve ar de saudade, fala de Marcela com carinho. “Ela foi uma luz na minha vida e, acredito, na de muitas pessoas. Serviu para mostrar que é preciso ter fé e que Deus existe. No meu coração não há lugar para tristeza. Só sinto saudade de alguém que amo”, disse.
Sobre o fato de o túmulo da filha receber a visita de peregrinos – segundo Luiz Carlos Dionísio, 46, funcionário do cemitério de Patrocínio Paulista, pelo menos duas mil pessoas já visitaram o jazigo da família Ferreira, contando os presentes ao sepultamento - Cacilda diz que não quer que a filha seja vista como santa, mas sim como exemplo. “Ela foi um ser humano que veio ao mundo e cumpriu o seu objetivo. Com a cobertura de imprensa, as pessoas puderam saber que a vontade de Deus é mais forte”, disse.


Conheça a história de Marcela de Jesus Ferreira
Marcela nasceu em 20 de novembro de 2006 na Santa Casa de Patrocínio Paulista. Foi batizada no mesmo dia, às pressas. Católica fervorosa, Cacilda homenageou, através da filha, o padre Marcelo Rossi.
Contrariando todos os prognósticos, Marcela permaneceu viva mesmo tendo nascido sem cérebro. Apenas parte do tronco cerebral e um ínfimo rincão do cerebelo sustentaram a vida do bebê nos quase dois anos que permaneceu viva.
A criança morreu no último dia 1º de agosto e, segundo médicos que a atenderam, a causa da morte não teve a ver diretamente com a anencefalia. Ela aspirou leite, o que causou o bloqueio do pulmão direito. Além disso, a pequena também estava com pneumonia.


Saiba mais sobre a anencefalia
Anencefalia é a malformação caracterizada pela ausência total ou parcial do cérebro e da calota craniana. Na maioria dos casos, é causada por um defeito durante a formação embrionária e fatores ambientais, como alta poluição, podem aumentar a incidência dos casos. Pessoas com idade mais baixa ou mais alta também estão mais propensas.
O Brasil registra um caso para cada mil nascidos vivos. O risco de incidência aumenta 5% a cada gravidez subseqüente à primeira em que a anencefalia é registrada. Além disso, mães diabéticas têm seis vezes mais probabilidade de gerar filhos com o problema. Há também maior incidência de casos de anencefalia em mães muito jovens ou nas de idade avançada.
A partir dos três meses de gestação, é possível diagnosticar a anencefalia no bebê. Em caso positivo, a mãe pode solicitar judicialmente o aborto e já há casos em que o juiz autorizou a prática.



EDUARDO SCHIAVONI
De Patrocinio Paulista

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