Especial
Sabado, 16 de Agosto 2008 - 22h1
IMPOTÊNCIA O repórter (na cadeira) e o estagiário Caio enfrentam obstáculos quase intransponíveis
É uma indescritível sensação de impotência, dependência e fragilidade. Com uma cadeira de rodas emprestada, empurrada pelo estagiário da redação, Caio Campanhão, saímos da sede de A Cidade, na rua São Sebastião, às 10h20. Com base na quantidade de rampas e guias rebaixadas que notei na cidade quando me coloquei no papel de pedestre por um dia, tinha a impressão de que o “passeio” não apresentaria grandes dificuldades.
Engano. Ao trocar meus pés e pernas sadias por um assento que aparentava ser confortável, perdi a firmeza do meu caminhar habitual. Se mal ligava para pequenos buracos e imperfeições do piso das nossas vias públicas, não demorei a irritar-me com a trepidação das rodas da cadeira, no calçadão da rua Tibiriçá.
Apesar do apoio do colega de redação, quis eu tentar me locomover sozinho com a cadeira, em alguns momentos. Pela falta de prática com os aros de alumínio que movimentam as rodas, meu esforço parecia em vão. Rodava aquilo e não conseguia ir para o ponto exato que havia fixado como meta.
Rampa íngreme
No calçadão da rua General Osório, há grandes lojas. Uma delas, com dois degraus altos bem na entrada, inibiria qualquer verdadeiro portador de deficiência que quisesse comprar uma máquina de lavar, por exemplo. Será que os vendedores estariam preparados para me carregar? Nem arrisquei.
Na esquina da General Osório com a Barão do Amazonas, dá-lhe esforço do Caio para “empinar” a cadeira de rodas e me tirar daquela guia rebaixada, porém com rampa íngreme. Na rua Cerqueira César com São Sebastião, nada de guia rebaixada. Em cada “empinada” da cadeira - ora de frente, ora de costas - eu me assustava e pedia para ele ir mais devagar. Por reiteradas vezes, deu vontade de levantar e sair andando, para acabar com todo aquele sofrimento.
Mas seguimos em frente. O cruzamento da Américo Brasiliense com Barão do Amazonas se mostrou o pior lugar para passar. O cruzamento é muito movimentado. O Caio desce a cadeira da sarjeta e a coloca rente ao meio-fio.
Ali não há rampa. Fora o solavanco da descida, tive a sensação real de que poderia ser atropelado por algum ônibus que fazia a curva estreita daquele local. A primeira tentativa foi em vão. O ônibus passou pertinho de mim. Pedi ao Caio que recuasse um pouco cadeira de rodas. Em seguida, ele me atravessou. Pior foi chegar ao outro lado da esquina e deparar com uma sarjeta ainda mais alta que o comum, pois nesse local existia uma boca-de-lobo.
Degrau no asfalto
“As calçadas de Ribeirão estão cheias de buracos e muito mal cuidadas. Nos cruzamentos mais movimentados, não posso atravessar com a cadeira e tenho que fazer isso no meio do quarteirão (e fora das faixas de pedestres). E onde há guia rebaixada, o asfalto está sempre mais alto, formando um degrau”, comentou Isabel Cristina Paviato, de 53 anos, que trabalha como cuidadora de uma idosa de 89 anos.
Encontrei Isabel na porta lateral da Catedral de São Sebastião, paralela à Visconde de Inhaúma. Lá, pelo menos, as minhas orações seriam tranqüilas, pois existe uma rampa bem cuidada, nivelada e com pouca inclinação. Difícil foi passar pela Inhaúma naquele trecho onde artesãos, hippies ou não, vendem suas correntinhas e quetais. O espaço para passar com a cadeira de rodas era tão reduzido que tivemos de ter muito cuidado para não derrubar aqueles tabuleiros.
Naquela manhã, num prédio de salas comerciais da Inhaúma com São Sebastião, postei-me diante dos sete ou oito degraus da portaria. O vigia sequer veio até mim para saber o que eu queria. Simplesmente disse ao Caio que abriria o portão da garagem, uma descida relativamente acentuada.
Por cuidado, fui segurando o “breque” da cadeira de rodas. Pelo elevador, subimos ao 11º andar, onde o fotógrafo Weber Sian, que nos acompanhava, registrou a imagem de um advogado. Lá também aproveitamos para tomar água. Estivemos, ainda, na porta do Palácio Rio Branco, sede do Poder Executivo. Quer dizer, não exatamente na porta, mas na praça com vista “privilegiada” para os imponentes degraus que existem ali.
O vigia desce e vem falar comigo, querendo saber sobre o serviço que eu precisava da municipalidade, já que os prédios das secretarias estão espalhados por vários bairros de Ribeirão. Uma jornalista, da assessoria de imprensa da prefeitura, reconhece-me em mais uma aventura para mostrar os problemas da cidade e logo se apressa em me dizer que um elevador será construído e adaptado à arquitetura clássica do palácio. Será? Esperamos que sim. Até porque muitos portadores reais de deficiência física certamente gostariam de ter acesso garantido ao centro das decisões do Executivo, como cidadãos que são, de fato e de direito.
O ‘cuidador’ leva um susto com tantas dificuldades: ‘o direito de ir e vir não é pleno’
Confesso que, quando recebi a “missão” de empurrar a cadeira de rodas do repórter Euclides Oliveira, pensei: “Ora, qual a dificuldade em se empurrar uma cadeira de rodas? É só empurrar e pronto”. O decorrer do dia em que passamos juntos, ele como cadeirante e eu como seu “cuidador”, me revelaria que a história não seria bem assim.
A primeira dificuldade foi acertar a velocidade. Eu achava que estávamos indo muito devagar, mas o repórter insistia para que eu diminuísse o ritmo antes que ele fosse lançado para a frente. Como a prioridade é do cadeirante, desacelerei. As calçadas estreitas e cheias de gente também são verdadeiros obstáculos para os deficientes. Notei que até os senhores, andando com dificuldade com suas bengalas, davam lugar para passarmos, devido à falta de espaço. Em algumas calçadas, além de não haver rampas, há sarjetas tão altas em relação à rua que a impressão que temos é a de que não vamos conseguir subir. No entanto, o repórter-fotográfico Weber Sian me ensina uma técnica, e conseguimos seguir em frente.
Boa surpresa na Catedral: rampas de acesso. Afinal, não seria justo que deficientes tivessem acesso restrito à Casa de Deus. Pergunto para a cuidadora da senhora de 89 anos se sua mão dói como a minha. “Sim, e muito”, ela responde. No fim, penso que a experiência foi válida. Afinal, outras pessoas passam por isso todos os dias, seja por profissão, por amizade ou por solidariedade. Na verdade, a grande dificuldade é do cadeirante, imagino. Ele, limitado, passa a ser extremamente dependente das pessoas e de medidas administrativas que modifiquem e adaptem os locais por onde ele passa. O direito de ir e vir, no caso do deficiente, não é, nem de longe, pleno.
(Caio Campanhão)
Pioneira na implantação de rampas, RP não segue normas da ABNT
José Antonio Lanchoti, arquiteto e urbanista do Centro Universitário Moura Lacerda, diz Ribeirão Preto foi pioneira em 1996 na construção de 2 mil rampas para a passagem de cadeiras de rodas, nos cruzamentos da cidade. Na ocasião, segundo ele, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) estipulava que tais dispositivos podiam ter uma inclinação de até 12,5%. Quatro anos depois, em 2000, estabeleceu-se que a inclinação das rampas não ultrapassaria 8,33%. Ou seja, uma redução de quase 40%.
“Fizemos vários testes. As pessoas em cadeiras de rodas tinham dificuldades porque a cadeira tombava para trás. Em algumas deficiências, isso ocorre porque a pessoa fica totalmente encostada na cadeira. Quando se joga o tronco para frente, a cadeira sobe. Hoje, temos mais de 3.000 rampas em Ribeirão. Calculo que 90% delas ainda não foram modificadas, pois não se estipulou verbas para alterar o grau de inclinação das mesmas”, afirmou Lanchoti.
De acordo com o arquiteto e urbanista, nas últimas duas vezes em que as ruas de Ribeirão Preto foram recapeadas, as administrações do município não levaram em consideração as necessidades das pessoas que usam cadeiras de rodas.
Segundo ele, prevaleceram os serviços para escoamento da água pluvial. Lanchoti queixou-se da “grande preocupação” dos governantes com os carros e com os buracos das ruas. “Não se arrumam as calçadas. Junto às rampas, pelo excesso de camada de asfalto, o local por onde passam os carros fica em nível mais alto do que a passagem para o cadeirante ou pedestre”, comentou Lanchoti.
Ele avaliou como “muito boas” as intervenções que estão sendo gradativamente implantadas em Sorocaba, Natal (RN) e Niterói (RJ), em função do desejo dos técnicos e do governantes desses locais para melhorar a condição dos portadores de deficiência física.
Segundo Lanchoti, o prédio da Secretaria Municipal de Planejamento, no Morro do São Bento, é o local que melhor demonstra a falta de preocupação do Poder Público com os mínimos princípios de acessibilidade. Para o urbanista, é inconcebível que a pasta (responsável pela aprovação de projetos privados para pessoas deficientes) não seja um local acessível.
“Fizeram uma obra grande na edificação e a pessoa é atendida no térreo, em um banco de Kombi. Isso contraria o decreto federal 5296/04 que deu prazo para o Poder Público deixar seus prédios acessíveis até junho de 2007. Passou-se um ano e nada foi feito”, afirmou Lanchoti. Segundo ele, o prazo de adequação para os estabelecimentos privados termina no próximo dia 3 de dezembro.
Para fugir das calçadas, doentes correm riscos
Cadeirantes preferem andar fora das calçadas, diz a presidenta do Conselho das Pessoas Portadoras de Deficiência Física
“A política de acessibilidade de Ribeirão, como um todo, vai mal”. Essa é a opinião de Geise Caroline Camillo, de 22 anos, que assumiu a presidência do Comppd (Conselho Municipal de Promoção e Integração das Pessoas Portadoras de Deficiência) no começo do ano.
Apesar de não ser cadeirante (faz uso de uma prótese na perna esquerda, por ter o fêmur mais curto, um problema congênito), conhece bem a realidade que A Cidade procurou mostrar. Segundo ela, quem depende de cadeira de rodas em Ribeirão Preto prefere andar pelas ruas, correndo risco de sofrer acidentes sérios.
“Essa semana assisti uma cena dessas, com um cadeirante andando na contramão na rua Tibiriçá, nas proximidades da avenida Francisco Junqueira, perto das oito da manhã, que é um horário de pico. Os carros tinham que desviar dele para não atropelá-lo. Normalmente, quando existem, as rampas são mal feitas e há buracos entre as ruas e as rampas. A inclinação delas, em geral, não é boa para o cadeirante conseguir subir”, comentou Geise.
O Conselho é vinculado à Secretaria Municipal de Assistência Social. Promove reuniões mensais com representantes de acordo com o tipo de deficiência (física, auditiva, visual, orgânica [epilepsia], intelectual e múltipla, no caso de pessoas que possui mais de um tipo de deficiência) e das secretarias de Educação, Saúde, Planejamento, Obras e Assistência Social.
De 15 a 21 de setembro, o Compdd vai realizar a Semana de Valorização da Pessoa Portadora de Deficiência. O conselho está localizado na rua Dom João VI, nº 115, no Jardim Mosteiro, nas proximidades da Cava do Bosque. O telefone para mais informações é o 3610-5138.