Hamilton de Andrade Lemos
Sexta-Feira, 22 de Agosto 2008 - 23h29 Não sei o nome e nem onde mora. Pela fachada da figura, provavelmente é pobre, mora na periferia e deve ter um grau de instrução dos mais baixos. Isso, claro, se não for semi-analfabeta. Do contrário, por que se sujeitaria à tarefa. A moça está lá, segurando a bandeira de um candidato a qualquer coisa.
Ela tremula o pano ao balançar o mastro de lá para cá. Não há empolgação alguma em seu rosto. Poderia, com o mesmo movimento, estar mexendo uma colher ou empinando pipa. Mas ela não é paga, mal paga, para ficar sorrindo. Sua obrigação é ser uma espécie de suporte para a bandeira do candidato, substituindo o poste, por exemplo, já que a lei eleitoral proíbe colar-lhe ou pregar-lhe propaganda política. Ela, então, se faz menos do que um poste.
Com as temíveis camisetas também proibidas, ela usa as roupas que tem. Os trapinhos velhos e não tão limpos contrastam com a bandeira colorida e brilhosa. Bandeira novinha, paga não se sabe como. Nos pés, um par de sandálias de dedo. Há esmalte nas unhas e sujeira de terra também.
Quando não há eleição, ela, que não sei o nome, distribui panfletos nos semáforos da cidade. Com a oportunidade sazonal da eleição, ganha uns trocados a mais. Uma mixaria a mais.
A situação que descrevo acima bateu em minha cara dia desses. A garota sem educação, sem saúde, sem emprego decente e sem futuro viável, segurando o símbolo de uma classe política que mantém milhões de brasileiros no limbo da sociedade. Inclusive ela, a porta-bandeira.
Para ela, tanto faz se o candidato que expõe na bandeira é bom, mau ou péssimo. Basta que lhe pague. É a massa ignorante perpetuando o desgoverno. E vice-versa.