Marcelo Canellas
Sabado, 23 de Agosto 2008 - 14h19 No extraordinário A Reforma da Natureza (1939), de Monteiro Lobato, Emília resolve mudar as imperfeições do mundo. A espevitada boneca de pano do sítio do Pica-pau Amarelo botou as abóboras na jabuticabeira e as jabuticabas no pé de abóbora. Criou pulgas moles e paradas no ar, moscas sem asas e minhocas com pernas.
Uma das lembranças mais remotas de minha infância é meu avô reunindo os netos na praia, num veraneio de janeiro, enumerando idéias para continuar a reforma de Emília. Meu avô era um bom garfo. É claro que sua reforma teria de começar pelo prato do almoço. Se não pode iluminar a sala com uma chama, por que a mandioca tem pavio? Se não usa pente, por que o milho tem cabelo? Ríamos todos com as coisas que meu avô considerava inexplicáveis, concordando com ele: Deus precisava de nossa ajuda para consertar criações mal feitas. Só muitos anos depois, em minhas aulas de botânica na escola, é que descobri que o pavio da mandioca e o cabelo do milho têm lá suas razões de existir.
Tentei reproduzir, com meu filho de 7 anos, a questão proposta por Emília e por meu avô: vamos reformar a natureza? Mas, enquanto eu propunha, a televisão mostrava uma seqüência de acontecimentos aterradores: dez franceses morriam no Afeganistão num confronto com talibãs, uma bomba jogada num hospital matava 23 pessoas no Paquistão, e outra bomba matava mais 43 na capital da Argélia. Em São Paulo, um arrastão saqueava lojas do Centro da cidade. Em Brasília, a violência contra professores e alunos atingiu um índice tão alarmante que a polícia instalava detectores de metal na porta das escolas públicas. Isso tudo em um único bloco de telejornal.
Então meu filho me surpreende com sua proposta: será que em vez da natureza a gente não pode começar pelas pessoas? Talvez a reforma da humanidade pudesse começar com o mesmo exercício de Emília, trocando abóboras e jabuticabas de lugar. Uma troca pedagógica, nem que fosse por um dia só. Eu e meu filho elaboramos uma lista de trocas urgentes. O Bush pelo aldeão iraquiano. O assassino pela vítima. O mendigo da sinaleira pelo dono do carrão importado. O banqueiro pelo favelado. O político corrupto pelo faminto. No dia da troca, cada um pensaria em sua nova condição. Talvez daí surgisse alguma resposta, e o inexplicável fosse finalmente explicado, fazendo da dor do outro a chave da reforma da humanidade.
*Marcelo Canellas é jornalista e repórter especial da Rede Globo