Especial
Sabado, 23 de Agosto 2008 - 16h42
AO VOLANTE DO TAXI VERSAILLES Trabalho debaixo de sol forte e com um trânsito que os motoristas consideram “estressante”: é uma longa jornada diária na “praça”
Antes de qualquer coisa, tenho que aprender a ligar e desligar o taxímetro (aparelho aferido pelo Immetro, que marca o preço das corridas) e entender como é feita a cobrança.
O táxi parte com bandeirada de R$ 4,40 e cada pulo (ou ‘batida’) do taxímetro custa R$ 0,20. Na bandeira 1, das 6 às 18 horas, são acrescidos R$ 0,20 a cada 100 metros de percurso. No horário noturno, com a chamada “bandeira 2”, das 18 horas às 6 horas da manhã, os ‘pulos’ do aparelho ocorrem a cada 80 metros do trajeto. Na prática, corridas noturnas são 20% mais caras, explicou-me Donizete.
Minha conversa com o dono do carro acaba quando o celular dele toca. Além das corridas no ponto, Donizete, 51 anos, 25 deles no ramo, também tem clientes fixos. Dirigir um carro grande e que não é da gente não é muito fácil, de primeira. Tenho que me acostumar rapidinho aos retrovisores e aos pedais de freio, acelerador, embreagem, câmbio. Faço isso no trajeto, mas, impressão ou não, me parece que o GNV- gás natural veicular- deixa o táxi mais lento, em alguns momentos.
Minha primeira corrida: vou buscar um casal num hospital particular da avenida Independência, na altura do número 4000, perto do Jardim João Rossi. De lá, inicio a corrida com o homem (um inglês) me ensinando todo o trajeto. A esposa dele vai sozinha no banco de trás.
A corrida é longa: voltamos pela avenida Independência, passamos por várias ruas estreitas da região central e chegamos a uma loja de autopeças na avenida Francisco Junqueira, perto da rua Amador Bueno. Ele foi buscar sua caminhonete, que estava em manutenção: chegamos lá às 15 horas, com R$ 15,20 marcando no taxímetro.
Meu cliente resolve ficar por lá mesmo, para aguardar o término do serviço. A mulher, então, me pede que a leve num consultório médico da rua Eliseu Guilherme, esquina com a avenida Independência, no Sumaré. Ela havia perdido o cartão com o telefone do local, me conta no trajeto.
São 15h20 e o taxímetro marca R$ 22,60 nessa segunda parada. Espero uns 15 minutos, torrando no sol, no estacionamento descoberto de uma agência bancária. A mulher retorna e me pede, desta vez, para levá-la à residência do casal, no Centro.
Chego com o taxímetro marcando R$ 30. Por não conhecer bem algumas rotas alternativas do trânsito de Ribeirão, erro o caminho em duas vezes, durante o trajeto. Resolvo dar um desconto de R$ 2 e cobro R$ 28 da freguesa. Ela paga com uma nota de R$ 50. Por sorte, eu tinha dinheiro trocado e lhe devolvi R$ 22.
Quando ela desceu, pediu-me meu cartão de “taxista” e dei-lhe o meu de jornalista de A Cidade, revelando o propósito da reportagem. “Eu sabia que você tinha algo de diferente”, gargalhou a professora aposentada Glória Maria Chaves Turnley, de 50 anos, ao final da “corrida”, quando me forneceu seu nome e de seu marido (o engenheiro agrônomo aposentado Richard Leslie Turnley, de 70 anos, natural da Inglaterra).
Críticas ao trânsito
Volto para o ponto, na Duque de Caxias. A fila de táxis anda rápido e logo estou de novo na Visconde de Inhaúma. Uma mulher se aproxima, perguntando pelo Donizete, o dono do táxi, estranhando minha presença ao volante. Digo que estou trabalhando para ele e iniciamos a corrida até o Hospital São Lucas (Bernardino de Campos com Amadeu Amaral, na Vila Seixas).
Fala pouco durante o trajeto. Só se queixa do trânsito de Ribeirão, com medo de perder sua consulta. Pagou a corrida (R$ 8,40) com uma nota de R$ 10, às 16h15. Pedi-lhe R$ 0,50 para facilitar o troco e devolvi R$ 2 para a aposentada Ilza Pereira de Souza, de 76 anos, que também concordou em me dar seu nome após receber meu cartão de visitas de A Cidade.
O calor é terrível e o trânsito também
Volto ao ponto de táxi do Donizete, no Centro. O forte calor e o conturbado trânsito de Ribeirão me cansam bastante no final da tarde. Normalmente, dirijo pouco durante a semana, pois fico a maior parte do tempo na redação. Na terceira corrida do dia, vou buscar um rapaz num consultório médico numa esquina da avenida Itatiaia, também no Sumaré.
Espero um pouco, fora do carro, e o passageiro embarca. É um comerciante que não quer ter seu nome revelado, mas que usualmente chama Donizete para suas corridas.
Apesar de simpático, ele não é muito falante. Me dá apenas o endereço para onde quer ir, no Centro, onde tem uma lanchonete. Fora isso, entra mudo e sai calado do “meu” carro. Discreto, não paga os R$ 9,20 da corrida, porque tem um acerto particular com Donizete: só acerta por semana. É prático para o passageiro, percebo, e bom para Donizete, que “fideliza o cliente”.
Volto para o ponto às 17 horas, para esperar pela minha última corrida do dia. Eis que chegam várias universitárias, novatas, perguntando aos taxistas: “Moço, você leva cinco (passageiras)”?. A maioria deles recusa, para evitar problemas, já que quatro das jovens teriam que andar apertadas no banco de trás.
Sem consultar o Donizete, topo fazer a corrida até o Centro Universitário Barão de Mauá, no Jardim Paulista. Antes de sair com o táxi, elas quiseram combinar o valor da corrida, para que eu não ligasse o taxímetro. Ofereceram R$ 7 (o que daria R$ 1,40 para cada uma delas, valor menor que uma passagem de ônibus, que custa R$ 2,20 em Ribeirão).
Recuso a proposta. Ligo o taxímetro e explico que o táxi não é meu, como justificativa. No caminho, entre uma e outra piadinha, as jovens dão muitas gargalhadas. Estão na faixa dos 18 aos 21 anos.
Estudantes do primeiro ano de Medicina, nenhuma delas é de Ribeirão Preto. Apenas Caroline Ichikawa, de 20 anos, é paulista (de Mauá, na Grande São Paulo). Geraldina Cristina Maia dos Santos, de 18 anos, e Daniela Vieira, vieram de Trindade (GO) e de Goiânia, respectivamente. O grupo se completa com Maria Fernanda Albuquerque Santos, de 21 anos, que veio de Ituiutaba (MG), no Triângulo Mineiro.
Lentidão
Estou em boa companhia, mas preciso manter a postura de motorista profissional. Nada de muita conversa. Enquanto elas se divertem, tenho que prestar muita atenção ao pesado trânsito da avenida Francisco Junqueira, que já apresenta pontos de lentidão, naquele horário. Dez minutos depois, chego à faculdade com as jovens.
Hora do pagamento, novo alvoroço para juntar moedas. Fazem uma “vaquinha” entre elas e me pagam R$ 8 com várias moedas de R$ 1, R$ 0,50 e R$ 0,25. Quer dizer, colocam tudo no meu bolso, de uma vez só.
Desço do táxi e consigo fazê-las esperar um pouco. Tenho que entregar o pagamento ao dono do carro. Verifico se havia mesmo recebido os R$ 8 que o taxímetro marcou. Perfeito. Estava tudo certo com o dinheiro.
E eu me revelo: conto que sou jornalista e que elas haviam acabado de participar de uma reportagem sobre os táxis em Ribeirão. Primeiro, elas se assustam um pouco. Mas também parecem gostar da novidade. Uma delas, inclusive, anima-se ao me ver pegar o celular para pedir que o fotógrafo entre em ação e as fotografe.
Mas não é possível. Acaba não dando tempo, pois minhas outras “freguesas” estavam ou apressadas ou “encabuladas”.
Ao final das três horas e meia em que dirigi o táxi, arrecadei R$ 54,70, que entreguei para o dono do carro, no final da jornada de 32 quilômetros, em quatro corridas. O taxista Donizete também riu, quando lhe contei a história das jovens. Riu mais, porém, quando as moedas caíram em seu bolso, tilintando.
O taxista pode não ter patrão, como me disse Donizete. Mas tem que enfrentar um trânsito que não é pai, é carrasco. São valorosos estes homens (e as 10 mulheres taxistas de Ribeirão) que dirigem por horas a fio, sem reclamar. Certamente, eu não aguentaria tanto.
Sem décimo-terceiro ou férias, eles têm que trabalhar muito
Donizete Revelli me conta que tirou a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) aos 18 anos. Como eu, mas que diferença. Antes de ser taxista, trabalhou como técnico de raios-X e foi empurrado para o mercado informal pelo desemprego. “O bom da profissão é ficar livre de ter horário para cumprir, de ter cartão para bater. Se eu não quiser, não venho trabalhar”, me explica Donizete.
Mas se não trabalhar, não ganha. Por isso, a rotina é pesada: ele acorda todos os dias às 5h30, toma café, e de sua casa, no Ipiranga, vai direto para o Aeroporto Leite Lopes, onde chega às 6 da manhã. Estaciona o táxi e aproveita para fazer uma caminhada de quatro quilômetros nas proximidades, até a chegada dos pilotos de aeronaves que costuma transportar.
Às 8, vai para o ponto da Praça Carlos Gomes, entre as ruas Duque de Caxias e Visconde de Inhaúma. Roda cerca de 80 quilômetros por dia, fazendo de cinco a seis corridas até as 19h, “num dia bom”, segundo ele. Os valores são os mais diversos: R$ 6, R$ 7, R$ 20, R$ 30 ou mais, dependendo da distância do bairro em relação ao Centro. “Tem gente que entra (no táxi) e não fala nada, além do endereço. Tem gente que vai conversando comigo”, conta.
Dividindo o ponto com 15 taxistas em média, Donizete espera de 30 minutos a 2 horas para ser o primeiro da fila. Em valores brutos, ganha R$ 1,5 mil por mês. Porém, descontadas as despesas com álcool combustível e com GNV (Gás Natural Veicular), não tira mais que R$ 800 líquidos ao final de 30 dias. “Dá para pagar as continhas”, afirma Donizete.
Trabalhou à noite durante quatro anos, quando iniciou na profissão. Nunca foi assaltado, mas seu irmão, Sidnei Revelli, que dirigia o carro no período noturno, não teve essa mesma sorte: passou por sério apuro ao levar dois “passageiros” ao Parque Ribeirão, há cerca de três meses. “Mandaram que ele descesse. Um queria matar e o outro dizia para ‘deixar quieto’”: foram momentos de pavor.
Além do dinheiro, roubaram-lhe o taxímetro, a frente do toca-CD e até mesmo a caixa de ferramentas do táxi. Na fuga com o carro, bateram o Versailles numa guia, causando danos à suspensão. O reparo ficou em R$ 1,5 mil. Prejuízo duro de recuperar.
“Na minha época, não tinha perigo, não tinha nada”, comentou Donizete, sobre o tempo em que trabalhava de madrugada. Pergunto, então, se ele costuma recusar corridas. “Depende muito da cara da pessoa. Existe muita gente engravatada que já roubou taxista em Ribeirão”, completa.
Outro problema apontado por Donizete é a existência de táxis “clandestinos” no setor. Oficialmente, existem 383 táxis cadastrados na Transerp (Empresa de Trânsito e Transporte de Ribeirão Preto). “Eles não têm placa vermelha (própria para carros de aluguel), não tem taxímetro e cobram a corrida combinando o valor antes. Às vezes, cobram até mais caro do que a gente (os legalizados)”, queixa- se o taxista.