Caderno C
Quarta-Feira, 27 de Agosto 2008 - 0h14
DEDICAÇÃO Oswaldo Fioravante estudou a composição do italiano Paganini por quatro meses
Durante quatro meses, o acordeonista Oswaldo Fioravante dedicou horas e horas diárias para o estudo de uma composição complicadíssima: “Moto Perpetuo”, escrita pelo italiano Niccolò Paganini (1782-1840), um dos maiores violonistas de todos os tempos. O objetivo era gravar a música de uma vez só, sem edições, em poucos minutos. O resultado é assombroso.
- São 2.880 notas em quatro minutos, contabiliza Oswaldo que, sem falsa modéstia, considera o feito “o ápice da técnica”.
O músico garante que no Brasil, apenas ele e o grande Sivuca (1930-2006) conseguiram tal feito.
- Mas o Sivuca gravou com orquestra e eu fiz tudo sozinho, avisa.
Nascido e criado no bairro dos Campos Elíseos, Oswaldo, aos 39 anos, é o que podemos chamar de perfeccionista. Apesar de se apresentar em bailes e escrever e tocar músicas para duplas sertanejas, gosta mesmo é de fazer concertos em teatros.
- Mas infelizmente, poucos têm cultura para dar valor à música clássica, lamenta.
Aulas de orquestração
Não que Oswaldo tenha algo contra a música popular. Na verdade, aprendeu as primeiras notas com o pai, sanfoneiro que se apresentava por toda a região animando festas com temas de Mário Zan e Luis Gonzaga. Aos 8 anos, já tirava temas de ouvido e aos 15 começou a ter aulas com mestres como o italiano Dante D’Alonzo e os irmãos Rubens e José Baldim.
- O professor Baldim foi uma referência pra mim. Me passou muita técnica e estudos eruditos, recorda.
Oswaldo nunca fez faculdade de música, mas sempre estudou muito. Ano passado, por exemplo, assistiu a aulas de orquestração e regência para fazer arranjos para orquestra.
- Tem que conhecer a técnica para fazer um bom dedilhado, mas também gosto de improvisação. E isso nenhuma escola ensina, garante o acordeonista, que também dá aulas.
Acordeomania
Oswaldo já tem quatro CDs gravados. O último foi “Dallapé no Choro”, que, apesar do nome, inclui clássicos de todos os estilos e composições próprias. Dallapé é a marca preferida do acordeon do ribeirão-pretano. Um dos modelos que utiliza, um Stradella, tem cem anos de idade.
- Gosto tanto da marca que ensinei meu papagaio a dizer o nome. Ele fala “Dallapé do papai”, diverte-se.
Outra obra de destaque é o CD “Acordeomania”, gravado em 2005 em parceria com outras feras do instrumento como João Francisco Junqueira e José Augusto Vasques. Já a versão de “Moto Perpetuo” pode fazer parte de uma coletânea em que executa obras clássicas.
Não por acaso, o paraibano Severino Dias de Oliveira, o Sivuca, é seu maior ídolo em terreno tupiniquim. O músico foi um dos pioneiros na união entre a música erudita e popular no acordeon.
- O Dominguinhos toca bem, mas o negócio dele é forró. O Sivuca era mais completo e tocava de tudo, ressalta o músico que também menciona o paulista Mário Genari Filho entre suas influências.
Ao final, Oswaldo, que ainda trabalha como representante comercial para ajudar nas contas da casa, dá a receita para um grande acordeonista.
- Precisa ter o dom de Deus, ouvido apurado e estudar muito. Estou sempre aprendendo, resume.
História
Moto Perpetuo é a peça mais famosa do compositor italiano Niccolò Paganini
Niccolò Paganini foi um compositor italiano que revolucionou a arte de tocar violino. Elevou o instrumento ao nível de importância do piano, para o qual compunha a maior parte das peças solo de sua época. Foi um dos criadores da estética musical romântica e enriqueceu em negócios ligados a concertos públicos.
Mas ficou famoso também pelo seu estilo da vida rebelde, freqüentemente gastando todo seu o dinheiro em jogos e diversões noturnas. Os últimos anos da sua vida foram passados em Nice, na França, onde morreu por causa de uma tuberculose.
O estilo de vida de Paganini e a sua aparência misteriosa deram origem a histórias de que o seu virtuosismo era devido a um pacto com o demônio. Sua peça mais famosa é Moto Perpetuo: Allegro, de concerto para violino e orquestra.