Vicente Golfeto
Quinta-Feira, 28 de Agosto 2008 - 1h1 Ezra Pound dizia que “os artistas são as antenas da nação”. Para sabermos para onde vai uma nação, qual caminho que ela está tomando, entretanto, não devemos cuidar do artista. Devemos prestar atenção na sua arte. Porque ele produz uma arte que, não raro, nem ele sabe avaliar sua extensão ou sua profundidade.
Jazz é vontade de potência enquanto bossa nova é promessa de felicidade. Isto para ficarmos apenas na área da música. E em ritmos, não numa obra. Com a bossa nova, por exemplo, o samba desceu o morro e veio para a praia. Uma parte da classe média expunha, por meio da bossa nova – que é a trilha sonora dos anos dourados – seus anseios, sua aspirações. E até suas frustrações.
Mas a bossa nova foi produto de uma faixa intelectualizada da classe média. É produto – com o cinema novo; com as conquistas das copas do mundo de 1.958 e de 1.962; com as vitórias de Maria Ester Bueno no tênis – de um tempo de muito otimismo cujo ícone foi o presidente Juscelino Kubitschek.
Com toda esta representatividade, entretanto, a bossa nova foi responsável por meia hora de programa diário em emissoras de rádio. Isto quando as emissoras dedicavam tempo a este tipo de ritmo. Porque, na maioria dos casos, apenas algumas músicas eram lembradas. E tocadas. Não é o que ocorre atualmente com a música sertaneja, considerada brega mas que tem a preferência da maioria dos ouvintes. Há emissoras de rádio que têm programação diária, de 24 horas, dedicada a este tipo de música. Que não abrange a música de raiz, não. É só brega mesmo.
Com toda conversa que há sobre a bossa nova, ela foi expressiva sim. Ela traduzia anseio de uma geração de jovens que aspiravam a um Brasil mais desenvolvido e mais civilizado. Mas nunca foi ritmo de maioria. Como o é, esmagadoramente, a música sertaneja.
Democracia é vitória da quantidade. Ela conta cabeças. Os regimes de qualidade cortam cabeças.