Júlio Chiavenato
Quinta-Feira, 28 de Agosto 2008 - 1h1 Triste a vida de um Policarpo Quaresma de segunda classe. Antes que alguém me ponha no meu devido lugar, me chamando de Catão dos canaviais, assumo a pecha. A culpa não é minha: é deles. A animalada é tão corrupta e safada que é preciso ter algum moralista de plantão para se indignar. Ou pelo menos fingir. Como o poeta fingidor do Fernando Pessoa, malgrado a heresia de convocar o astrólogo portuga pra nossas (deles) sacanagens.
Catão, todo mundo sabe, é como ficou conhecido o general romano Marcius Porcius Cato. Vejam que o nome dele já prenunciava o que seria: Porcius vem de porco, pois o distinto cuidava de suínos. Cresceu, virou general, escritor, mas não traiu as origens: batalhou contra os políticos porcalhões, que roubavam o Estado, traíam Roma e viviam chafurdando na luxúria e corrupção. Mas Catão era um exagerado. General, venceu os gregos e não queria mais parar: a velha frase “delenda Cartago” é dele, que não tolerava a sobrevivência de um tostão da cultura helênica.
Moralista que só, não aceitava as mulheres romanas de sandálias de prata e mantos de seda bordados com fio de ouro. Menos ainda, o que elas faziam com os varões. Além do mais, odiava os patrícios. E para culminar, foi censor.
Porém, escrevia bem pacas. Acho que melhor do que eu. Quem fez um segundo grau antigo, se não esqueceu, ainda consegue ler Catão no latim original. É bom demais. Mas voltando aos porcos ou à vaca fria, ele escreveu contra os poderosos da Roma imperial. E este que vos chateia, catônica e catatonicamente fala mal de uns pés-rapados municipais sem grandeza. O que lhe dá, em contraponto, a sua medida.
Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado. Preciso mudar de vida. Ou de quadrado.