Jornal A CIDADE

Especial

Sabado, 30 de Agosto 2008 - 16h54

Novos idosos vivem muito, só que são mais vulneráveis

F.L.PITON Novos idosos vivem muito, só que são mais vulneráveis CONVIVÊNCIA NA PRAÇA Aproximação natural e encontros diários, em eventos ou dias normais: é rotina na Praça XV de Ribeirão Preto

Duas novas gerações de idosos no Brasil viverão mais que as anteriores por causa do avanço médico e tecnológico. Só que o grau de dependência dessas pessoas, com mais de 60 anos de idade, poderá se transformar com o tempo em problema de saúde pública: além do país não estar preparado para enfrentar a demanda, desde já existe falta de cuidadores treinados, mesmo entre os profissionais de saúde. A expectativa de vida no Brasil cresceu mais nos últimos cinco anos: hoje chega a 75,8 anos para as mulheres e 68,1 anos para o homem.
- É cada vez mais idoso cuidando de idoso – constata Jair Lício Ferreira Santos, professor titular de Medicina Social da Faculdade de Medicina da USP, de Ribeirão Preto, pesquisador associado de um grupo que desde o ano 2000 está acompanhando a vida de 2143 pessoas da cidade de São Paulo, com mais de 60 anos. A pesquisa avaliou a situação dos idosos em duas faixas: entre 60 e 75 anos de idade e acima de 75 anos. Foram analisadas informações como renda, escolaridade, doenças, etnia, saúde, consumo de álcool e atividade física. Os dados foram revistos depois de cinco anos e houve formação de um novo grupo de idosos para posterior comparação.
O estudo faz parte do projeto SABE - Saúde, Bem Estar e Envelhecimento- que está sendo realizado em sete países da América Latina e do Caribe, para avaliar uma série de fatores ligados à saúde dos idosos, com financiamento da Fapesp e do CNPq.
Os dados, que não diferem muito da realidade de Ribeirão Preto (veja no box), mostram uma dependência moderada dos idosos, mas com um complicador : a família está ficando menor e mais ocupada e sempre existe a falta ou o despreparo do cuidador de idosos.

Mais idosos
Jair Ferreira Santos - graduado em física pela USP, com mestrado em Sociologia na Universidade de Chicago e doutorado em saúde pública pela USP – se dedica a dar aulas e a pesquisar os fenômenos populacionais.
Na condição de demógrafo, fundador e membro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais – lembra que nessa questão a responsabilidade do Estado não é completa, só que nada está sendo feito para preparar as famílias em geral e os profissionais de saúde. A previsão de que o Brasil iria ter 10% da população na terceira idade em 2020, já é realidade.
- Também os dados projetados de queda da fecundidade, para 2025, estão valendo esse ano: o número de filhos por mulher caiu para abaixo de dois. O que significa que a base da pirâmide populacional está ficando cada vez menor e o topo crescendo com maior longevidade das pessoas.
Sobrevivência e fragilidade
De posse de dezenas de gráficos e tabelas, elaborados com a ajuda de uma equipe de campo de estudantes, que fez e refez as entrevistas - o pesquisador alerta:
- Quem tinha mais de 60 anos antes do ano 2000, nasceu antes do BCG, do antibiótico e teve uma vida mais dura. Os sobreviventes dessa época são os mais fortes. Já os idosos que estão chegando agora, passaram mais facilmente pelos problemas de saúde graças ao avanço da medicina. Embora ganhem em tempo de vida, serão mais frágeis, com mais problemas funcionais e de limitação.
Essa teoria é de um demógrafo renomado (Palloni) e que é aceita por especialistas em saúde pública. Essa “fragilidade” das novas gerações de idosos – que deverá merecer nova pesquisa específica - transparece nesse estudo iniciado no ano 2000 e revisto em 2006.
- O conjunto das dificuldades dos idosos, que são fatores de risco para mortalidade, é aferido sabendo como eles se comportam para levantar da cama, atravessar o quarto ou ir ao banheiro, como parte das atividades básicas diárias. Ao mesmo tempo levantamos as atividades instrumentais da vida diária, como dificuldade para manejar dinheiro, falar ao telefone, sair e pegar uma condução - explica o pesquisador.

Estudo mostra que em Ribeirão Preto idoso é mais independente e solitário
Ribeirão Preto, cidade com 57.700 pessoas de ambos os sexos com mais de sessenta anos de idade - cerca de 10% da população (33.294 mulheres e 24.273 homens) de acordo com os dados do Data Sus - já tem novo referencial para conhecer a faixa da terceira idade: numa pesquisa feita em todos os bairros da cidade sob a orientação da professora titular da Escola de Enfermagem da USP, de Ribeirão Preto, Rosalina Partezani Rodrigues, foi constatado que os idosos da cidade são mais independentes que a média nacional, pois conseguem se cuidar sozinhos.
Os dados da pesquisa - que entrevistou 515 pessoas entre 65 e 103 anos de idade - ainda estão sendo tabulados e analisados. Encontraram na pesquisa nove idosos com mais de 90 anos. Do total dos entrevistados, 155 (30%) tem mais de 80 anos de idade.
A professora, especialista em gerontologia, comenta que a independência maior dos idosos da cidade pode ser provocada pelo receio de ir para os asilos. Em Ribeirão Preto existem 8 asilos filantrópicos que foram pesquisados pelos alunos. Os entrevistadores não conseguiram obter informações dos asilos particulares, que se recusaram a responder as perguntas. Mas só vão para os asilos particulares os idosos de classe social mais abastada, que é uma pequena porcentagem da amostra.
Apesar de independentes, os idosos se consideram mais solitários e abandonados no dia-a-dia. Como contraponto, tem uma qualidade de vida melhor que os idosos da capital, por causa da maior proximidade de conhecidos e parentes e pelo fato de conseguirem se locomover na cidade com mais facilidade.

Depressão e cuidadores
A coordenadora da pesquisa informa que a prevalência de depressão entre os idosos deverá ser alta, mas os dados ainda não foram fechados.
Nos demais itens, a realidade dos idosos locais é semelhante à encontrada no município de São Paulo (veja box), diferindo apenas nos itens que se referem à qualidade de vida.
Ribeirão Preto não é diferente do restante do planeta: as mulheres vivem mais, fenômeno já batizado de “feminização do envelhecimento”, por questões sociais e biológicas.
Para a professora Rosalina Partezani Rodrigues, o problema da falta de cuidadores treinados ou não, é preocupante: apenas 18% dos 515 entrevistados contam com cuidadores familiares. Somente poucas famílias das classes A e B tem recursos para contratar enfermeiras para cuidar dos seus idosos. Uma das queixas encontradas foi a da solidão e abandono, o que pode ser a causa da alta prevalência de depressão na amostra selecionada.

O que falta
Aproveitando o período eleitoral, a professora Rosalina Rodrigues disse que se tivesse oportunidade, sugeriria ao futuro prefeito da cidade, a ser eleito esse ano, um cadastro de todos os idosos atendidos pelas Unidades Básicas de Saúde.
Pediria o treinamento de profissionais de saúde para lidar com os idosos, “porque ainda não sabem”. Há necessidade de formação de recursos humanos para trabalhar na avaliação clínica desses idosos.
- A pessoa olha o idoso, mas não enxerga os detalhes, as suas necessidades. Eu chamo muito a atenção dos meus alunos para esse fato importante para os pacientes acamados. Os que não são treinados não percebem nada.
Conta sempre para os alunos a piada do idoso de 85 anos de idade que foi ao médico com muita dor no joelho esquerdo. O médico disse a ele:
- Não se preocupe, isso é coisa da sua idade.
- Mas o meu joelho direito não dói e tem a mesma idade - respondeu compenetrado o homem.
- Quando a pessoa não conhece, não consegue fazer avaliação clínica com mais detalhes - comentou a especialista que recomenda ainda dar mais atenção aos programas de extensão dos idosos.
Terceira Idade: aos 60 ou 65?
A pesquisa feita pela Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto fez uma amostra para estudo com pessoal da terceira idade a partir dos 65 anos. Já a pesquisa que está sendo realizada pelo Projeto SABE em São Paulo e em sete países da América Latina e do Caribe, tem uma amostra a partir dos 60 anos de idade. Afinal, quando começa a terceira idade?
A professora Rosalina Partezani Rodrigues explica que como o estudo de Ribeirão Preto será comparado aos dados de outros países do primeiro mundo, a amostra local fixou o início idêntico ao utilizado para os países desenvolvidos: a partir dos 65 anos de idade.
O professor Jair Lício Ferreira Santos, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e pesquisador associado no projeto SABE, conta que terceira idade a partir dos 60 anos é uma recomendação da Organização Mundial de Saúde por causa da diferença entre os países latinos e africanos em relação à Europa, onde vive maior proporção de idosos.
- Acho que esse índice será revisto em breve, porque estamos caminhando para uma outra faixa, por causa do aumento da expectativa de vida - admitiu.

Dado internacional: mulheres vivem mais do que os homens
Um dado internacional que é confirmado em todas as pesquisas: as mulheres vivem mais do que os homens, em todas as idades, não só por causa de questões sociais, mas também por uma proteção hormonal. O pesquisador Jair Ferreira Santos lembra que nascem mais homens do que mulheres, só que esse número cai à medida que passa o tempo.
- Os homens morrem mais cedo desde antes do nascimento. Na juventude, por causa de acidentes, tipo de trabalho, violência e vida desregrada, muitos acabam indo a óbito. Quando se chega na faixa da terceira idade, o número de mulheres já é bem maior – garante Santos.
O pesquisador conta que um sociólogo francês decidiu fazer uma pesquisa definitiva sobre essa questão de sobrevivência maior da mulher. Ele trabalhou com registros desde a Idade Média de vários monastérios para monges e monjas enclausurados. E conseguiu fechar um estudo de duas ordens que mantinham o mesmo sistema de vida tanto para homens como mulheres.
- Tanto os homens como as mulheres viviam igualmente fechados dentro dos seus respectivos mosteiros, produzindo o próprio alimento, sua roupa e com a mesma rotina. Ele verificou que ali também as mulheres viviam mais do que os homens – conta o pesquisador, lamentando que o sociólogo não conseguiu publicar o estudo porque não obteve permissão das ordens religiosas.

Causas remotas
A pesquisa entrevistou no ano de 2000 um total de 2.143 pessoas com mais de 60 anos. Até março de 2007 foi encerrada outra bateria de entrevistas com os sobreviventes seis anos mais velhos: foram encontrados vivos 1.156 pessoas (morreram 627 desde 2000). Não foram localizados 152; mudaram de município, 59; foram internados em asilos e hospitais, 9; se recusaram a participar da entrevista, 140.
Os dados levantados encontram cada vez mais conexões entre as condições de vida na infância e a saúde, a morbidade e a mortalidade entre os idosos. As mulheres se queixaram mais do aspecto econômico da qualidade de vida e os homens em relação à doença.
A ligação entre as doenças da infância e os problemas da terceira idade mereceu uma avaliação particular, que será apresentada pelo professor Jair Lício Ferreira Santos no final do mês em Caxambu, durante congresso da Associação Brasileira de Estudos Populacionais.
Uma pessoa, por exemplo, que teve tuberculose antes dos 15 anos de idade, ao chegar à velhice seu organismo poderá manifestar outros problemas de saúde.
- Ter tuberculose na infância aumenta em 13 vezes a chance de enfrentar problemas de sobrevivência.
Outra doença no começo da vida que aumenta a possibilidade de provocar cardiopatia é a febre reumática. Outros fatores que influenciam de alguma forma a sobrevivência na terceira idade: ficar acamada por muito tempo ou ter tido asma antes dos 15 anos de idade.
- O fato da pessoa ter problemas nas suas atividades diárias já é um marcador negativo. Quando o idoso diz que sua saúde em geral não está boa, ele sabe do que está falando e é uma informação relevante para o clínico que trata dele. Já a dificuldade de ir ao banheiro, por exemplo, aumenta em duas vezes e meia a possibilidade da pessoa vir a falecer - informou o pesquisador.
Esses dados sobre as causas remotas das doenças, o professor Jair Ferreira Santos apresentou numa oficina de trabalho de idosos na Costa Rica.
- Quando se aplica essas perguntas para a faixa dos 60 aos 75 anos de idade, não aparece nada. Já com a turma com mais de 75 anos, começa a aparecer o efeito dessas doenças nos bem idosos – disse Ferreira Santos. A causa dessa conexão encontrada, ainda precisa ser melhor investigada.

RUBENS ZAIDAN
ESPECIAL PARA A CIDADE

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