Imóveis
Sabado, 6 de Setembro 2008 - 16h44 O espaço nas artérias das cidades – ruas, avenidas, vias expressas – em virtude do crescimento da frota de veículos, tem-se constituído num bem público cada vez mais precioso. E precioso é adjetivo derivado do substantivo latino pretium, que significa preço. Portanto, tudo o que é precioso não apenas tem preço. Tem preço elevado. É esta realidade, que nasce da lei da oferta e da procura, que explica – por exemplo – a existência do que em Ribeirão Preto se denomina de área azul. Ela iniciou sua existência na parte central mas atualmente já chegou a alguns bairros, podendo esticar-se a outros.
O princípio político é republicano. A área de todos, localizada nas ruas, serve para estacionamento de veículos de algumas pessoas apenas. O estacionamento em ruas e artérias sem ônus financeiro, sem contrapartida de pagamento de nenhum preço, nada mais é do que o prosseguimento da apropriação de bens públicos por agentes privados. Mas na maioria esmagadora das ruas não se aplica o princípio porque o custo da cobrança – por excesso de oferta – tornaria a medida antieconômica.
O conflito veículo versus espaço, que está necrosando diversas áreas do tecido urbano de boa parte das cidades brasileiras – o trânsito não flui na velocidade desejada – pode ser pelo menos temporariamente equacionado com uma medida: proibir-se estacionamento em todas as ruas onde existe área azul. Referimo-nos a Ribeirão Preto. Nossas artérias centrais – já o dissemos – foram traçadas não se prevendo o automóvel. O veículo principal era o carro-de-boi, além da carroça a tração animal. Pois bem, ainda assim, permitimos o estacionamento, em horário comercial, muitas vezes em ambos os lados das artérias. Estreita-se mais leito da carroça. A velocidade do trânsito, em algumas ruas e em determinados momentos do dia, assemelha-se à do tílburi, veículo à tração animal dominante na Inglaterra do final do século 19.
Mas a solução definitiva seria exigir mais espaço para veículos, alargando-se as artérias, produzindo-se mais avenidas e vias expressas. Esta solução, entretanto, somente poderia ser aplicada em novos loteamentos, o que significaria: 1 - que estar-se-ia preparando a cidade para daqui, pelo menos, meio século; 2 - que esta medida deveria ser combinada com a anterior. Mesmo assim, tudo seria paliativo porque, a expansão do individualismo, o obituário do coletivo, a ausência de transporte de massa – mesmo metrôs de superfície – vão exigir medidas mais drásticas. E em pouco tempo, sob pena de não se poder locomover mais dentro das cidades, principalmente das que têm população superior a 500 mil habitantes.
Se você souber de loteamentos que tenham cuidado de dimensões maiores para as ruas, não tenha dúvida; pode ser que esteja aí um local para onde o centro de gravidade da economia urbana venha a se deslocar.
VICENTE GOLFETO