Caderno C
Quinta-Feira, 13 de Novembro 2008 - 23h49
GABRIELA SALORMONE Se não fosse meia-entrada, estudante não iria aos eventos da cidade
Vai ser votada na próxima terça-feira, dia 18, na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Congresso Nacional, o projeto que regulamenta o uso da carteirinha de estudantes. O texto apresentado pela relatora, senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), propõe que uma cota de 30% dos ingressos destinados a estudantes e idosos sejam colocados à venda em eventos culturais. O sistema de cotas já funciona em alguns Estados, mas não é regra geral.
No texto apresentado pela senadora também existe uma proposta que limita a confecção das carteiras de estudante a uma fonte única a ser definida pela Ministério da Educação. Atualmente várias entidades podem oferecer a carteirinha, devido à Medida Provisória 2.208, editada em abril de 2001, que acabou com a exclusividade das entidades estudantis na emissão do documento (Veja Box).
Única entidade
O tema é polêmico. A UNE (União Nacional dos Estudantes) não concorda com a proposta, porém apóia a criação de um órgão único responsável pela emissão das carteirinhas.
“Nós da UNE queremos ser a única entidade responsável por essa emissão. Sabemos que da forma que está não existe um controle”, afirma o vice-presidente da União Estadual dos Estudantes em Ribeirão Preto, Fábio Henrique Granados Sardinha. Atualmente o órgão cobra R$ 25 em São Paulo para a confecção da carteira. Quanto a criação de uma cota, Sardinha é enfático.
“Como teremos a certeza de que realmente a lei está sendo cumprida?”, pergunta.
Excluído
O documento original da senadora previa também um item que restringiria o uso da carteira nos finais de semana e feriados, em cinemas, e de quinta a sábado, em shows e peças teatrais, mas foi retirado do relatório depois de algumas negociações.
Segundo o presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo, Augusto Chagas, o item dificilmente seria aprovado. “Tiraram esse parágrafo do relatório sobre os finais de semana porque acredito que não seria aprovado, mas independente disso acho importante o debate”, diz.
Para Antônio Veiga, produtor cultural há 20 anos, a melhor opção é exatamente o que foi excluído do relatório. “Sem dúvida abrir espetáculos em dias alternativos por um valor mais barato para os estudantes é o ideal. Afinal, muitos jovens têm horários mais alternativos durante a semana”, diz.
Discussão
Ainda assim, o produtor acha importante levantar a discussão. “Acho que deve sim rever a forma como se utiliza esse desconto. Já soube de pessoas que não são estudantes e têm a carteirinha, isso tira todo o crédito do benefício”, afirma.
Veiga afirma também que o preço dos ingressos seria menor se existisse uma outra forma de desconto para os estudantes. “Tenho certeza que muitos espetáculos sairiam mais em conta”.
A matemática é simples. O valor dos ingressos de muitos espetáculos são inflacionados, porque os produtores levam em conta o valor do desconto da meia-entrada.
O diretor e produtor musical Billy Bond, responsável por grandes espetáculos no Brasil, é categórico sobre o assunto. “Muitos jovens utilizam esse benefício só para pagar menos no cinema, mas shows mesmo acredito que a maioria não vai. Não existe meia em bares e mesmo assim os jovens freqüentam sem problemas”, diz.
Um exemplo é o estudante Matheus Tonetto, 18 anos, que tem a carteirinha porque a própria escola onde estuda forneceu e só a utiliza nos cinemas.
“Não gosto muito de ir ao teatro, então aproveito o desconto no cinema”, diz.
Vale a pena
A operadora de telemarketing Tanara Fernandes de Souza, 21 anos, não tem mais o direito ao desconto, mas acha que tinha uma vida cultural maior quando utilizava do benefício. “Na época em que eu era estudante ia muito mais ao cinema e a shows. Realmente fica caro pagar uma entrada inteira”, afirma.
Embora concorde com a vantagem do desconto, Tanara faz coro com os produtores. “Hoje que eu não tenho mais esse desconto também acho que a lei deveria mudar”, opina.
Para e estudante Gabriela Salomone, 18 anos, que mudou para a cidade há apenas seis meses, a carteirinha é válida.
“Gosto de teatro e sempre utilizei o desconto em Ubatuba, aqui em Ribeirão ainda não deu para eu aproveitar muito. Mas se eu tivesse que pagar o valor de um ingresso inteiro com certeza não poderia ir”, afirma.
Descrédito
Para União dos Estudantes, medida provisória é responsável por abusos
Para o presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo, Augusto Chagas, a medida provisória 2.208 é a maior responsável pelo aumento no valor dos ingressos.
“Foi essa medida que acabou com o benefício e o levou ao descrédito por parte dos produtores e empresários. Antes dessa medida eram vendidos 30% dos ingressos com desconto para estudantes, depois dela 70% da bilheteria é equivalente a meia-entrada”, afirma.
A MP acabou com a exclusividade das entidades estudantis na emissão do documento.
“Isso fez a falsificação aumentar muito. Na verdade, hoje, nem os estudantes pagam meia. O valor dos ingressos subiram tanto que ninguém está utilizando o benefício”, diz
Chagas explica que embora a UNE seja contrária à cota de 30% proposta pela senadora, a necessidade de regulamentar a lei é real.
“Não somos contra a regulamentação, apenas não concordamos em restringir o benefício”, conclui.
Marina Rossini
Especial para A Cidade